A Valid ganhou fama e escala com a emissão de documentos como RGs e CNHs, além da produção de cartões e SIM Cards. Mas, há pouco mais de três anos, com a perspectiva de estagnação ou desaceleração nesses segmentos, decidiu que era hora de renovar sua identidade.
Para seguir bem na foto, o caminho escolhido foi construir novos negócios nas áreas de mobile, governo digital e identidade digital, no rastro da ascensão das chamadas idtechs. E o retrato mais recente dessa transição, os resultados do quarto trimestre e do ano de 2025, acabam de ser divulgados.
À primeira vista, o balanço traz efeitos dessa mudança, ainda em curso, como as quedas de receita: em três meses, de 9,8%, para R$ 531,4 milhões, e, em 2025, de 5%, para R$ 2,06 bilhões. Além do recuo no lucro anual, de 29,2%, para R$ 268,7 milhões – no trimestre, houve alta de 42,8%, para R$ 88,4 milhões.
“Temos essa responsabilidade nos ombros de mudar nossa matriz de receita e não escondemos que lidamos com negócios que caem”, diz Ilson Bressan, CEO da Valid. “Mas nossa resposta é esse portfólio do futuro. E os negócios mais maduros ainda geram resultados para investirmos nessas novas frentes.”
Em meio ao desafio de equilibrar esses pratos, ele prefere chamar a atenção para um detalhe no balanço: a receita anual dos negócios digitais, que incluem as novas frentes e ofertas com essa pegada no portfólio mais maduro, que cresceu 27% no ano, para R$ 472 milhões.
“São quase R$ 500 milhões, o que já representa cerca de 23% da receita total”, afirma. “Se fôssemos uma empresa completamente separada, o mercado estaria nos precificando num múltiplo de cinco vezes a receita desse negócio digital. E isso já seria maior do que o valuation da Valid hoje.”
O mercado realmente ainda não comprou totalmente essa tese em execução da empresa. As ações da companhia, avaliada em R$ 1,5 bilhão, acumulam uma queda próxima de 18% em doze meses. E um recuo superior a 7% em 2026.
Bressan traz outros números para reforçar seus argumentos. Ele diz, por exemplo, que o crescimento dos novos segmentos ajudou a compensar as quedas nos negócios mais tradicionais. A principal delas, em meios de pagamento, com a emissão de cartões, cuja receita recuou 38,5% em 2025.
A vertical também foi um dos principais fatores que impactaram o Ebitda, que, no ano, recuou 11,3%, para R$ 432,1 milhões. O indicador teve, no entanto, uma expansão de 10,3% no trimestre, para R$ 120,7 milhões, com margem de 22,7%, contra 18,6%, um ano antes.
Em outro ponto ressaltado no balanço, a Valid fechou 2025 com uma posição de caixa líquido de R$ 93 milhões, o equivalente a uma dívida líquida negativa de 0,2 vez o Ebitda. “Temos uma posição financeira sólida e temos fôlego para seguir financiando o crescimento dos negócios digitais.”
Esse caixa para alimentar os novos negócios também foi reforçado recentemente. Em janeiro, a Valid aprovou uma linha de financiamento com o BNDES que pode chegar a até R$ 300 milhões. Antes, em 2025, já havia fechado um financiamento de até R$ 150 milhões com a FINEP.
A empresa já tem definidos os próximos passos a serem dados para acelerar essa pegada digital, com maior foco em uma área: a plataforma integrada de identificação – do onboarding e do monitoramento de credenciais nesses ambientes à segurança das transações e operações em tais espaços.
Após ampliar o time dedicado a essas áreas em 2025, de 244 para 362 profissionais, um dos planos já em execução é a integração de todas as ofertas do portfólio em uma estratégia comercial unificada, numa aposta em vendas cruzadas, uma abordagem, até então, inexplorada pela Valid.
Essa orientação traz um papel estratégico, inclusive, para os negócios mais maduros, como os cartões, que podem funcionar como uma porta de entrada para que a Valid ganhe terreno com as ofertas digitais em outro segmento foco nesse novo posicionamento: o setor privado.
“Hoje, o nosso gerente de contas não pergunta a um banco, por exemplo, se ele quer comprar algo além do cartão físico”, diz Bressan. “Mas aquele banco está comprando o onboarding digital da Unico, o antifraude da Clearsale e soluções de outros players.”
Ao citar esses players – e outros, como idwall, o executivo deixa claro com quem a Valid concorre nesse novo percurso. E, nessa direção, ele ressalta que a integração também passa pelo desenvolvimento de produtos que reúnam recursos e tecnologias de diferentes unidades de negócio da companhia.
Esse é o caso, por exemplo, de um produto que está saindo do forno e que combina o eSIM, evolução do SIM Card tradicional, embarcado diretamente em smartphones, com recursos de biometria para trazer uma camada adicional de segurança nas transações nesses dispositivos.
“Precisamos fechar os gaps que temos em relação ao mercado e a concorrentes que saíram na frente no que diz respeito à essa plataforma integrada de identificação digital”, afirma. “Boa parte disso será feito internamente, mas os M&As também são bem-vindos para acelerar esse portfólio.”
Última aquisição da Valid, a compra da idtech Flexdoc aconteceu em maio de 2023. No ano passado, a empresa olhou mais para dentro de casa, ao ampliar suas participações e assumir o controle da VSoft e da Mitra, fruto de M&As feitos anteriormente.
“Nós avaliamos mais de 30 empresas só em 2025 e entramos em conversas mais avançadas com pelo menos meia dúzia delas. Em algum momento, esses acordos podem acontecer”, diz. “Esse é um ano importante de integração desse conceito de plataforma. Mas está na hora de voltarmos a ter um M&A.”




