sem descrição BBC News fonte F1 ACADEMY LTD/PARC FERMÉ Em muitos aspectos, Rachel Robertson é uma típica adolescente britânica. Ela passa as horas vagas en sem descrição BBC News fonte F1 ACADEMY LTD/PARC FERMÉ Em muitos aspectos, Rachel Robertson é uma típica adolescente britânica. Ela passa as horas vagas en

As mulheres que desafiam tabus para serem os novos rostos da F1

2026/03/18 22:32
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Em muitos aspectos, Rachel Robertson é uma típica adolescente britânica.

Ela passa as horas vagas encontrando seus amigos para almoçar e cursa a faculdade perto da sua casa, no sul da Inglaterra.

Mas, em um aspecto específico, ela é totalmente diferente.

Seu trabalho é ficar sentada à frente do volante de um elegante carro de corrida de 174 cavalos, sentindo o cheiro de combustível no ar e ouvindo o ruído dos pneus.

Robertson é uma das pilotos mais rápidas do planeta.

A jovem de 18 anos faz parte de um grupo de elite de mulheres que estão invadindo o automobilismo, dominado desde a sua criação por dois poderes institucionais: os homens e o dinheiro.

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Robertson disputa a F1 Academy, um campeonato somente de mulheres promovido pelo Grupo Fórmula 1. Ela quer ser a primeira mulher nos últimos 50 anos a se qualificar para a Fórmula 1, o torneio automobilístico anual mais popular do mundo.

Rachel Robertson dirige o carro PUMA, da equipe britânica Hitech — Foto: BBC News fonte Rachel Robertson dirige o carro PUMA, da equipe britânica Hitech — Foto: BBC News fonte

Robertson começou no kart, aos 14 anos de idade. Ela se lembra de ser normalmente a única menina na pista.

Ela competia com os meninos, que, segundo elas, costumavam achá-la um incômodo, não uma competidora séria.

"Por grande parte do tempo, eles pensam 'oh, é só uma menina na minha frente, vou tirá-la da pista'."

Eram esses mesmos meninos que, segundo Robertson, ficavam muitas vezes sem ter o que dizer quando ela acelerava na linha de chegada à frente deles.

"Eles não querem reconhecer que, na verdade, você é melhor", ela conta.

"Se você perder para alguns deles, eles dizem 'foi bom'. Mas se você ganhar? Eles não dizem nada."

Esmee Kosterman disputa a F1 Academy pela equipe patrocinada pela Lego — Foto: BBC News fonte Esmee Kosterman disputa a F1 Academy pela equipe patrocinada pela Lego — Foto: BBC News fonte

A piloto holandesa Esmee Kosterman conta a mesma história. Hoje com 20 anos de idade, ela se lembra de competir contra meninos que nem sempre apreciavam sua presença.

"Eles sempre me diziam 'não é para meninas' e 'não é o seu esporte'. Eles ridicularizavam", ela conta.

A paixão de Kosterman pelas corridas tomou forma aos seis anos de idade.

Quando era criança, sua mãe a levava da escola para os recitais de dança, enquanto seu pai, amante do automobilismo, levava seu irmão para o circuito local.

"Eu disse aos meus pais 'não quero dançar, quero também ir para o circuito, dirigir!"

"E foi assim que tudo começou", relembra ela, rindo.

Robertson e Kosterman estão entre as corredoras que concorrem este ano na F1 Academy pela primeira vez. E aproveitam a orientação das suas rivais com mais experiência.

Alba Larsen seguiu os passos da vice-campeã da F1 Academy de 2025, Maya Weug, da Ferrari — Foto: BBC News fonte Alba Larsen seguiu os passos da vice-campeã da F1 Academy de 2025, Maya Weug, da Ferrari — Foto: BBC News fonte

Este é o segundo ano de Alba Larsen na F1 Academy. Agora, ela ocupa o cobiçado assento da gigante italiana Ferrari, a maior escuderia do automobilismo mundial.

Alguns anos atrás, a jovem dinamarquesa de 17 anos iria rir se dissessem a ela onde ela estaria hoje.

Durante os lockdowns da pandemia de covid-19 em 2020, a maior parte dos esportes foi cancelada devido às regras de proximidade.

Um amigo, então, convidou Larsen a tentar o kart. Era muito diferente do handebol a que ela estava acostumada, mas ela conta que aquilo acendeu um fogo dentro dela.

Larsen relembra claramente a sensação dos pequenos solavancos sobre o asfalto, o cheiro da borracha queimada e como sua cabeça se impulsionava para trás quando ela pisava no acelerador.

"Eu não dirigia muito rápido... mas só me lembro da adrenalina", ela conta.

"Você sente todas essas emoções. E acho que é ali que você realmente se apaixona pela direção."

Larsen afirma que nunca pensou que sua paixão pudesse se transformar em carreira, já que ela não via mulheres competindo no nível superior do automobilismo profissional.

E é esta questão que a F1 Academy tenta mudar.

Lella Lombardi chegou em 14° lugar no Grande Prêmio do Brasil de 1976, em Interlagos — Foto: BBC News fonte Lella Lombardi chegou em 14° lugar no Grande Prêmio do Brasil de 1976, em Interlagos — Foto: BBC News fonte

O automobilismo é um dos poucos esportes em que homens e mulheres podem competir de igual para igual — teoricamente.

Mas, olhando as principais categorias, é impossível confirmar isso, já que elas são totalmente dominadas por homens com dinheiro.

A última mulher a competir na Fórmula 1 foi a italiana Lella Lombardi (1941-1992), em 1976. Ela foi, até hoje, a única a pontuar na categoria.

O estudo mais recente indica que apenas 10% dos pilotos atuais do automobilismo são mulheres.

O percentual mais alto de participação feminina é o do kart (13%), a categoria na qual quase todos os pilotos profissionais começam suas carreiras, incluindo Robertson, Kosterman e Larsen.

Mas, nas categorias superiores, o índice cai para 7%.

Esmee Kosterman conta que seus heróis na pista são Max Verstappen, Beitske Visser e Susie Wolff — Foto: BBC News fonte Esmee Kosterman conta que seus heróis na pista são Max Verstappen, Beitske Visser e Susie Wolff — Foto: BBC News fonte

A F1 Academy foi fundada em 2023, como parte de um plano ambicioso de fazer as mulheres voltarem ao grid da Fórmula 1 e aumentar o número de mulheres pilotando carros de corrida.

Basicamente, ela parece um programa de graduação para jovens corredoras que demonstraram sua aptidão nas categorias júnior do kart.

Para desenvolver suas habilidades, a F1 Academy fornece o tipo de apoio institucional que, historicamente, só era disponível para os homens: financiamento, treinamento e, o mais importante, tempo na pista.

Na pirâmide do automobilismo, ela é equivalente à Fórmula 4, a categoria internacional de corrida para iniciantes individuais.

As pilotos passam por 14 corridas, em sete etapas, para que uma seja campeã da F1 Academy, o que vale a participação totalmente financiada na disciplina da sua escolha.

Mas há um porém. As poucas competidoras que têm esta chance provavelmente terão apenas dois anos na academia para atingir sua marca. E, se não conseguirem, precisarão continuar batalhando sem contar com todo este apoio.

Rachel Robertson afirma que existe muita pressão das corredoras para demonstrar imediatamente o seu potencial — Foto: BBC News fonte Rachel Robertson afirma que existe muita pressão das corredoras para demonstrar imediatamente o seu potencial — Foto: BBC News fonte

Para Kosterman, o potencial de perder sua vaga para aquele segundo ano fundamental é o que mantém seu foco afiado.

"Não há tempo para erros. Você quer defender a sua vaga", ela conta. "E, se não conseguir, já sabe: no ano que vem, a vaga não é mais sua."

Um relaxamento das normas anunciado no ano passado fez com que algumas pilotos pudessem receber exceções para continuar por uma terceira temporada, caso se acredite que seja benéfico para o seu desenvolvimento.

Rafaela Ferreira, da equipe espanhola Campos Racing, é a representante brasileira na F1 Academy 2026 — Foto: BBC News fonte Rafaela Ferreira, da equipe espanhola Campos Racing, é a representante brasileira na F1 Academy 2026 — Foto: BBC News fonte

A F1 Academy não escapa dos críticos.

Alguns deles — incluindo o tetracampeão mundial de Fórmula 1 Max Verstappen — expressaram sua preocupação com os carros usados na série. Eles seriam lentos demais para permitir que as mulheres ascendessem adequadamente até a F1.

Outros questionam o propósito de separar as mulheres pilotos em uma categoria própria.

Larsen afirma que existe muita pressão sobre as mulheres.

"Você não pode cometer muitos erros ou as pessoas irão dizer que 'são mulheres motoristas, é claro que isso vai acontecer'", segundo ela. "Mas não é assim. Eu também posso ser agressiva!"

Robertson está animada com a oportunidade de aprender com outras mulheres na pista, após anos de isolamento.

"Neurologicamente, as mulheres não são iguais aos homens. Existem muitas diferenças e estou muito curiosa para ver o que acontece quando todas nós, as 18, estivermos dirigindo juntas", destacou ela, antes do campeonato deste ano.

Existem também as pressões financeiras.

O custo somente do kart inicial pode ser de mais de US$ 10 mil (cerca de R$ 52,5 mil) e as mulheres costumam ter dificuldade para buscar investimento e patrocínio no início de carreira. Este fator é fundamental para poder prosseguir no esporte.

Mas, ao contrário de outros projetos automobilísticos voltados para mulheres do passado (como a extinta Série W, 2019-2022), a F1 Academy parece ter chegado para permanecer por um bom tempo.

A categoria firmou parceria por vários anos com todas as 11 equipes da Fórmula 1 e conta com o apoio dos principais patrocinadores.

Sua mais recente campeã é a francesa Doriane Pin, que assumiu este ano como piloto de testes da equipe Mercedes de Fórmula 1.

As campeãs de 2023 e 2024 (a espanhola Marta García e a britânica Abbi Pulling) também estão na pista até hoje, disputando campeonatos regionais e internacionais.

"Eu me lembro de quando tinha oito anos de idade, na escola primária, quando me perguntaram 'o que você quer ser quando crescer?", conta Robertson.

"Eu respondi 'piloto de Fórmula 1'. É a minha estrela-guia."

Fotografias cedidas pela F1 ACADEMY LTD/PARC FERMÉ, Rachel Robertson, Esmee Kosterman e Alba Larsen. LAT Images via Getty Images.

A temporada 2026 da F1 Academy começou em 13-15 de março, em Xangai, na China, com a vitória da holandesa Nina Gademan e da austríaca Emma Felbermayr.

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