Na fronteira entre o estado de Roraima e a Venezuela, a produção de cacau do tipo fino tem impulsionado a renda de povos indígenas.
Um dos projetos responsáveis por esse movimento é da Mágio Chocolates, biotech que busca fomentar o cultivo de cacau amazônico por pequenos produtores indígenas, com alto valor agregado e pagamento de prêmios em relação ao praticado no mercado.
O objetivo é transformar a amêndoa da região em chocolates finos vendidos principalmente no Sudeste do país, segundo executivos da empresa ouvidos pela Bloomberg Línea.
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A operação da empresa teve início em 2014, quando a Mágio ainda se chamava Chocolates De Mendes.
O negócio nasceu de forma bootstrap, apenas com investimentos do fundador, César De Mendes, no Pará, estado que concentra a principal unidade produtiva do grupo. A De Mendes segue baseado majoritariamente no Pará.
O projeto com comunidades Yanomami e Ye’kwana, em Roraima, começou em 2019 e conta também com parcerias e associações locais.
Desde 2020, a Mágio recebeu R$ 16 milhões em investimentos, dos quais R$ 8 milhões foram aportados em 2025 pela CBKK, uma venture builder focada em negócios de impacto socioambiental.
“Desde o início, o propósito foi contribuir para o bem-estar e o bem-viver das comunidades, que passaram a enxergar o cacau como uma oportunidade de gerar renda e trabalho”, disse Marcelo Tucci, CEO da CBKK, à Bloomberg Línea.
“Esse trabalho envolve comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas e foi isso que despertou o interesse pelo projeto”, acrescentou.
Os recursos foram direcionados à abertura da primeira loja própria e de uma fábrica em São Paulo, no bairro nobre do Itaim Bibi, perto da Faria Lima, centro financeiro do país, além do desenvolvimento de novos produtos.
“Ficamos muito contentes com a ampliação do investimento da CBKK, pois isso evidencia a confiança no nosso trabalho”, disse Renan Tanzillo, diretor de marketing da Mágio, em entrevista à Bloomberg Línea.
A empresa opera hoje com capacidade instalada para processar cerca de uma tonelada de chocolate por mês, embora a produção média esteja em torno de 500 quilos.
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O modelo de produção é híbrido: a amêndoa de origem amazônica sai de Roraima para o Pará e, após o processamento inicial, é transportada para São Paulo, onde ocorre a etapa final da produção.
“Chegamos a um produto [final] muito bom. Agora o desafio é como ganhar escala sem perder o propósito, porque ainda somos uma operação pequena”, disse Tanzillo.
Segundo o diretor da empresa, o cultivo do cacau da Mágio é totalmente rastreável.
A amêndoa comprada pela empresa é transformada em licor, enquanto a manteiga é parcialmente adquirida de outras companhias, como a Gencau, que detém o maquinário necessário para a separação dos componentes.
Para a linha de chocolates amazônicos, a Mágio incluiu embalagens com fotografias licenciadas de Sebastião Salgado, em uma coleção desenvolvida em parceria com os povos Yanomami e Ye’kwana. O valor das caixas com bonbons especiais varia de R$ 499 a R$ 1.290.
A iniciativa busca conectar o produto final às comunidades que fornecem o cacau, em edições limitadas dentro do portfólio da empresa. A companhia não divulga qual percentual das vendas será revertida para os povos indígenas.
Segundo os executivos da Mágio, os maiores custos da operação estão, além do cacau, em embalagens e na logística de transportar as amêndoas, sobretudo em um momento de produção ainda limitada.
A estratégia do grupo tem sido a de ampliar gradualmente a escala para diluir despesas, com foco em chocolates premium e de maior valor agregado em vendas em lojas próprias e kits para o meio corporativo.
A Mágio projeta crescer dez vezes em 2026, com faturamento estimado em cerca de R$ 5 milhões.
“Enxergamos o mercado mais com o olhar potencial de desbravarmos e criarmos uma nova categoria de chocolates”, disse Tanzillo.
Os executivos da empresa disseram que “pagam um prêmio relevante” pelo cacau adquirido das comunidades.
Segundo eles, o valor pode ficar entre 50% e 55% acima do preço do tipo commodity, que tem como referência a ICE, bolsa em Nova York que negocia contratos futuros.
Esse prêmio pago leva em conta a qualidade do cacau fino e os “serviços ambientais e sociais” prestados pelos produtores.
“Essas mesmas associações indígenas sempre são remuneradas pela Mágio não apenas pelo fornecimento das sacas de amêndoas de cacau como também recebem uma bonificação extra pelos serviços ambientais e sociais prestados”, disse Tanzillo.
Além do pagamento pelo cacau, o projeto envolve investimentos em capacitação e infraestrutura da região.
De acordo com a empresa, cerca de R$ 1,3 milhão já foi aplicado ao longo dos anos no desenvolvimento das comunidades, incluindo oficinas técnicas, construção de estruturas de fermentação e secagem e logística em áreas de difícil acesso.
Parte desse trabalho é feito em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), que atua há décadas na região.
Para os produtores amazônicos, o cacau passou de uso tradicional a uma importante fonte de renda que tem ajudado a moldar diferentes gerações, além de ser uma alternativa ao garimpo ilegal.
“Nós conhecemos há muito tempo esse cacau. O cacau curou o nosso planeta. É remédio caseiro. Mas conforme fomos ganhando conhecimento vimos que era possível também produzir chocolate”, afirmou Julio Ye’kwana, presidente da Associação Wanasseduume Ye’kwana, à Bloomberg Línea.
Segundo ele, há cerca de 2.000 pés de cacau plantados em sistema agroflorestal, que integra os cacaueiros com outras plantas, em sua região, mas há planos de triplicar esse número para 6.000 em dois anos.
“As pessoas estão interessadas em fazer acontecer”, disse Ye’kwana, que disse ter planos de, no futuro, processar e fabricar a sua própria barra de chocolate.
A terra descrita por Ye’kwana está na divisa entre Roraima e a Venezuela. E a renda gerada pelo projeto, segundo ele, tem impacto direto no cotidiano das aldeias.
“Vimos que a produção de cacau e a fabricação de chocolate são muito boas para a renda das famílias, já que permite trabalhar na própria comunidade, sem precisar sair dela”, disse.
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