A companhia dinamarquesa Novo Nordisk vive as últimas 48 horas como detentora no Brasil da patente do Ozempic e Wegovy, canetas emagrecedoras à base de semaglutida que mudaram o status da indústria e do varejo farmacêutico no país.

Após disputas judiciais para tentar ampliar o prazo (ou recompor o período, segundo a empresa) por causa da demora no registro final por parte do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), a patente do princípio ativo expira, de forma definitiva, na sexta-feira, 20 de março.

A partir de sábado, em tese, qualquer outra empresa do setor poderá produzir ou licenciar do exterior e comercializar o medicamento, a partir da aprovação do registro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Mas a tendência é que o primeiro registro da semaglutida no Brasil saia no fim de maio. No ano passado, a agência passou a priorizar as análises para liberação das canetas, dando preferência a fabricantes nacionais. E, no momento, há três pedidos com andamento avançado na fase de documentação: da Ávita Care, da EMS e da Megalabs.

O que está em jogo nesta corrida pelo tempo é um mercado que, somente em 2025, movimentou R$ 10 bilhões com a venda de canetas emagrecedoras nas farmácias brasileiras. A previsão é que deve chegar a R$ 15,6 bilhões em 2026. A perspectiva é que haja uma redução de pelo menos 30% sobre o preço do Ozempic, hoje vendido a cerca de R$ 1 mil.

“Olhando para o futuro, há uma grande oportunidade. Esse abismo de patentes do GLP-1 poderia remodelar significativamente o cenário farmacêutico no Brasil, reduzindo os preços, expandindo o acesso dos pacientes e criando oportunidades para empresas farmacêuticas locais e internacionais”, informa relatório do BTG Pactual, publicado na segunda-feira, 16 de março.

Segundo apurou o NeoFeed com fontes do mercado farmacêutico, o processo mais adiantado na Anvisa, e que deve ser aprovado no prazo de até 60 dias, é o da farmacêutica da família Sanchez. A vantagem da EMS está em, principalmente, já possuir uma plataforma pronta, na fábrica de Hortolândia (SP), para o início da produção do similar do Ozempic.

Desde agosto de 2025, a EMS já tem no mercado as canetas Elire e Lirux, que tem a liraglutida como princípio ativo. A molécula também era exclusiva da Novo Nordisk e expirou no Brasil no fim de 2024. A produção da semaglutida será no mesmo parque industrial.

No caso da Ávita Care, a empresa, que pertence ao grupo Soluto, assumiu o pedido que já estava em andamento da Eurofarma. O dossiê foi transferido em setembro do ano passado para a nova empresa, que fica em Vinhedo (SP), e que passou a ser a responsável pelo prosseguimento regulatório.

A companhia vai trazer para o Brasil a caneta da farmacêutica Adalvo, que tem sede em Malta. A semaglutida será produzida no Canadá, mas o plano é de, futuramente, produzir localmente.

“Estamos trabalhando para cumprir os últimos requerimentos técnicos para injetáveis desta categoria. Nossa expectativa é de concluir esse processo no menor prazo possível e oferecer à população um produto seguro”, diz Gisele Pimenta, CEO da Ávita Care, ao NeoFeed.

A Eurofarma alega que saiu desta disputa após assinar acordo de distribuição com a própria Novo Nordisk de dois medicamentos também à base semaglutida, Poviztra e Extensior, lançados em outubro de 2025, como uma tentativa de ampliação de mercado. Essas duas marcas também deixam ser de exclusivas, com o fim da patente da semaglutida.

Com isso, a Eurofarma entende já estar no mercado das canetas emagrecedoras, ainda que não seja fabricante. “A empresa é responsável distribuição, comercialização e promoção de duas marcas de semaglutida biológica injetável semanal, produzida pela Novo Nordisk”, afirma a companhia.

Com relação ao registro, a Eurofarma afirmou, em nota, que por causa da transferência da documentação, hoje “não possui qualquer medicamento em processo de obtenção de registro”.

Em relação à Megalabs, informações de mercado contam que a companhia, que tem sede no Uruguai e filial no Rio de Janeiro, deve entrar no mercado de semaglutida por meio do licenciamento de uma indústria estrangeira, com direitos sobre a venda da caneta no Brasil.

O ponto de atenção seria em relação à capilaridade de distribuição para este produto. No ano passado, a empresa celebrou parceria com a Bayer para comercialização de medicamentos de contracepção e cardiologia, fabricados pela empresa alemã.

Plano de 1 milhão de canetas

O NeoFeed apurou que, diante da proximidade da aprovação do registro, a EMS já estruturou um plano que envolve a produção de cerca de 1 milhão de canetas de semaglutida entre julho e dezembro deste ano.

E se prepara para lançar o medicamento a um preço que deve ficar entre R$ 500 e R$ 600, com as mesmas apresentações do Ozempic. Isso vai significar uma queda de quase 50% no valor hoje do produto da Novo Nordisk.

A estratégia passa, em um primeiro momento, em avançar no volume, ainda que isto signifique uma redução inicial de margem. A tendência é que, somente com o produto similar do Ozempic, a EMS alcance R$ 500 milhões em vendas em 12 meses.

Com as primeiras aprovações da Anvisa, a expectativa é que, no semestre seguinte, os técnicos da agência analisem os registros de pelo menos mais quatro farmacêuticas.

As que devem entrar na próxima leva são a Brainfarma e Cosmed (controladas pela Hypera Pharma), a indiana Sun Pharma e o Laboratório Cristália. Os pedidos da Aché, Althaia, Libbs, Aspen e Farma Vision devem ficar para uma terceira fase.

Além da indústria, as redes varejistas também estão se preparando para a ampliação deste mercado, a partir do aumento de players que irão oferecer as canetas emagrecedoras, nas suas variadas dosagens e preços.

No relatório do quarto trimestre de 2025, divulgado recentemente, a RD Saúde (formada por Raia e Drogasil) informou que os produtos análogos ao GLP-1, que são as canetas, têm registrado crescimento expressivo nos últimos trimestres.

“A introdução de novos medicamentos da classe GLP-1 tornou-se um vetor relevante de crescimento em medicamentos de prescrição. No 4T25, a categoria atingiu participação de duplo dígito nas vendas totais do varejo, gerando efeitos relevantes sobre a margem bruta em função do alto tíquete”, afirma a companhia.

Analistas do mercado financeiro também enxergam potencial de crescimento a partir da entrada de novos produtos para obesidade no varejo. “Esse abismo de patentes do GLP-1 poderia remodelar significativamente o cenário farmacêutico no Brasil, reduzindo os preços, expandindo o acesso dos pacientes e criando oportunidades para empresas farmacêuticas locais e internacionais”, acrescenta relatório do BTG Pactual.

Para André Tenan, sócio-diretor de health da A&M Performance, unidade da Alvarez&Marsal, o fim da patente da semaglutida deve influenciar diretamente não só o mercado farmacêutico, mas outros setores que são impactados pela mudança de comportamento do consumidor, como academias, varejo alimentar e moda.

Futura incorporação ao SUS?

Na avaliação de Tenan, a tendência é que, com a queda no custo, a possível incorporação do medicamento ao Sistema Único de Saúde (SUS), que foi negado no ano passado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) justamente pelo elevado valor, pode agora voltar à pauta.

“A obesidade hoje é uma pandemia no mundo. E este tema precisa ser discutido. Pode ser com protocolos restritos, focando em parcelas que mais precisam, por meio de parcerias público-privadas. Mas esse debate é necessário”, diz Tenan.

A alegação à época era que o impacto orçamentário ultrapassaria R$ 8 bilhões por ano. Esse valor representa quase o dobro do orçamento do Farmácia Popular em 2025 (R$ 4,2 bilhões).

Ao NeoFeed, o Ministério da Saúde confirmou que a futura queda no valor do produto pode influenciar o retorno da discussão em Brasília.

“Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa. Esse é um fator determinante para a análise da possível incorporação de uma nova tecnologia ao SUS”, diz a Pasta, em nota.

Em meio à proximidade do fim da patente, a Novo Nordisk anunciou, no início de março, um projeto-piloto para ofertar o Wegovy em centros públicos de saúde. Entre os locais definidos estão uma unidade do Rio de Janeiro e outra do Rio Grande do Sul. Outro local ainda será incorporado ao plano.

Ainda que o produto siga muito representativo, o Ozempic perdeu espaço nas farmácias a partir da chegada do Mounjaro, da americana Eli Lilly, que chegou ao mercado brasileiro no ano passado e passou a liderar as vendas, apesar de ser mais caro e custar cerca de R$ 3 mil.

Para Nelson Mussolini, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), é preciso cautela para avanço destas iniciativas no setor público, principalmente estaduais e municipais, no momento que novos produtos, mais baratos, vão chegar ao mercado.

“Discutir um assunto deste nível agora, em ano eleitoral, não deveria avançar. Precisa tomar cuidado, embora discutir ações de combate à obesidade seja muito importante no Brasil”, afirma Mussolini.

Segundo a Novo Nordisk, a iniciativa junto ao SUS “tem como objetivo produzir dados e evidências sobre o impacto do uso da semaglutida injetável no tratamento da obesidade”. Não há dados do número de pacientes que vão participar da parceria entre a empresa e a rede pública de saúde.

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