Thierry Fischer tinha dez anos quando foi apresentado à música de Ludwig von Beethoven (1770-1827). Ele morava na Costa do Marfim – seus pais eram missionários Thierry Fischer tinha dez anos quando foi apresentado à música de Ludwig von Beethoven (1770-1827). Ele morava na Costa do Marfim – seus pais eram missionários

Um regente da Osesp sem medo da música de seu tempo

2026/03/15 11:10
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Thierry Fischer tinha dez anos quando foi apresentado à música de Ludwig von Beethoven (1770-1827). Ele morava na Costa do Marfim – seus pais eram missionários – e descobriu, na coleção de sua mãe, um disco contendo a Quinta Sinfonia.

“Eu toquei o mais alto que pude. Me lembro de dançar sozinho e repetidamente ao som daquela melodia,” disse o regente. “Quando você tem 10 anos, é tudo puramente instintivo. Simplesmente senti uma forte atração.”

Quase seis décadas depois, as criações do alemão continuam a encantar o maestro titular e diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de S. Paulo (Osesp), que abriu a temporada 2026 com a Nona, considerada uma das mais perfeitas obras eruditas de todos os tempos.

“Trata-se de uma peça que fala da obrigação do diálogo, de sermos confortados por uma mensagem simples e otimista. Exatamente o que precisamos em tempos tão turbulentos,” disse Fischer.

Este ano marca a sexta temporada à frente da Osesp do africano de origem suíça – ele nasceu na Zâmbia – e a segunda na qual ele acumula as funções de maestro principal e diretor artístico (posição que era ocupada pelo compositor e instrumentista Arthur Nestrovski, que deixou o cargo em 2022).

É uma das temporadas mais bem balanceadas da orquestra: traz desde conhecidos cavalos de batalha – Beethoven, Mahler, etc – a um ciclo de sinfonias de Mendelssohn e obras de Igor Stravinsky e Gyorgy Ligeti, autores de ponta da música do século XX.

O universo erudito brasileiro está representado por compositores celebrados como Almeida Prado (a suíte da Sinfonia dos Orixás) e Leonardo Martinelli, um dos talentos da nova geração de criadores nacionais, que compôs Cânticos da Casa do Sol por encomenda da própria Osesp.

“Uma temporada de orquestra é como um museu de arte moderna: você não tem só pintores atuais, tem também os clássicos para dar conforto e sensação de reconhecimento. Aquela sensação de: ‘Ah, esse a gente conhece,’” Fischer disse ao Brazil Journal. “É bom ter uma referência, mas ao mesmo tempo é importante para termos um olhar sobre essas obras.”

Um desses desafios se fez presente logo na noite de estreia: Gruppen, do autor alemão de vanguarda Karlheinz Stockhausen (1928-2007).

Composta entre 1955 e 1957, sua execução compreende três orquestras diferentes, distribuídas ao longo da sala de concerto, criando uma sonoridade única que “viaja” ao longo do palco.

“Stockhausen a criou logo depois da Segunda Guerra. Cada grupo representa uma energia, uma pequena comunidade, argumentando em conjunto e, apesar da total contradição e do caos, da impossibilidade de compreender o que o outro está fazendo, há sempre um diálogo. É uma peça intelectual tão complexa que nem vale a pena começar a falar sobre ela,” resume. “É mais do que um concerto, é uma experiência icônica e cósmica. Então temos três palcos, três maestros, e vamos dialogar juntos. Vamos nos deparar com um grande caos. Mas a ideia é que sempre haja uma circulação do som e o público poderá ouvi-la. Às vezes, há um elemento como uma dança ritual no final, com metais e depois com percussão, e aí é quase orgásmico.”

O comando da Osesp é um desafio e tanto para Fischer, que iniciou sua incursão pelo universo erudito quando sua família trocou a Zâmbia por Genebra (poucos anos depois, eles voltaram ao continente africano, desta vez na Costa do Marfim).

O instrumento inicial do futuro regente foi a flauta doce. No segundo período que passou na África, ele estudou piano no Conservatório de Abidjan e foi solista de uma peça para flauta doce, criada pelo compositor Jean-Baptiste Loeillet (1688-1720).

Fischer tinha 20 anos quando, já na Europa, aprimorou seus estudos – desta vez, na flauta transversal – com o músico Aurèle Nicolet (1926-2016) na Universidade de Música de Freiburg, na Alemanha. Como flautista profissional, passou por alguns grupos sinfônicos até estacionar na Orquestra de Câmara da Europa. Foi ali que teve contato com dois dos principais maestros do século XX: o austríaco Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), conhecido pela precisão histórica de suas interpretações (com direito a instrumentos de época e até a mesma formação dos tempos em que as obras foram criadas), e o italiano Claudio Abbado (1933-2014), que traz uma leitura mais suave para as obras que comanda.

“Harnoncourt me ensinou a ser historicamente bem informado. A expressão desse tipo de música vem das regras do tempo, articulação, senso de andamento… Tudo é absolutamente crucial,” explica. “Por outro lado, é importante ter uma performance mais solta, ‘esquecer’ o excesso de regras. Porque ninguém está interessado em ouvir algo historicamente correto, mas orgânico demais, sem emoção.”

Já Abbado “tinha uma aura misteriosa, era um cara cósmico. Ele não era muito de falar, como regente era excepcional, um dos melhores de todos os tempos. Mas era um mistério. Toquei onze anos com Abbado e até hoje não consegui decifrá-lo.”

Fischer iniciou a carreira como regente em 1991 e desde então assumiu a direção, entre outras, da Sinfônica de Utah, nos EUA, além de haver regido a Sinfônica de Boston e a Orquestra de Cleveland – grupos sinfônicos que fazem parte das “big five”, aquelas que definiram um padrão de excelência na cena erudita americana no século XX (as outras três são a Filarmônica de Nova York, a Sinfônica de Chicago e a Orquestra da Filadélfia). Thierry Fischer, além do combo paulistano, é regente da Sinfónica de Castilla y León, na Espanha.

Recentemente estendeu seu contrato com a Osesp até 2030, e seus planos no grupo incluem gravações. Eles fizeram a Segunda Sinfonia, de Gustav Mahler, e devem registrar a Quarta e a Sétima, que estão na programação de 2026.

O regente acha que deixou a sua marca no conjunto paulistano?

“Me sinto mais orgulhoso do que nunca por estar na Osesp. A possibilidade e a busca pela excelência em todos os aspectos, dentro e fora dos palcos, são algo único na indústria da música clássica. Não escondo a minha felicidade por estar aqui, estou extremamente feliz por ter mais seis anos pela frente. Sou o tipo de pessoa que se cobra muito para continuar sem desistir, dando todos os passos necessários, às vezes difíceis, para estar no caminho da qualidade,” jacta-se.

E por falar em excelência, lá vai Fischer, a caminho do pódio, ensaiar a dificílima Gruppen.

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