Entre no aplicativo de fotos do seu celular. Quais imagens estão guardadas ali que jamais seriam publicadas? Um nude, talvez. Ou aquele clique espontâneo de alguém querido, mas que deixa aparecer uma bagunça ao fundo, tornando-o pouco “aesthetic” para os padrões das redes sociais.
A exposição Fotos que nunca serão postadas, em cartaz no Instituto Via Foto, em São Paulo, parte dessa provocação lançada pelos curadores Marcello Dantas e Luciana Brafman: onde estão as imagens guardadas a sete chaves? Aquelas que não podem ou não devem se tornar públicas?
“Queríamos dar visibilidade a essas imagens que são muito importantes, porque todas dizem respeito a alguma intimidade, a um processo, a uma visão de mundo que, por natureza, costuma ser excluída”, afirma Dantas, em entrevista ao NeoFeed.
Para que essas fotos sigam sem ser postadas, a solução encontrada foi radical: ninguém entra na exposição com o celular. Antes de cruzar a porta, o visitante precisa trancar o aparelho em um armário. Lá dentro, as fotografias não se oferecem de imediato.
Cada uma permanece coberta por uma cortina que traz impressa apenas uma descrição textual. Cabe ao visitante decidir se puxa a corda e revela o que está escondido ou se preserva o mistério.
“Se estou dando ao autor o direito de expor, preciso dar ao público o direito de escolher se quer ver ou não”, diz o curador. “A cortina permite que cada um descortine apenas aquilo que deseja.”
Resistir à curiosidade de puxar a cortina é difícil. A solução expográfica, no entanto, tem uma origem histórica. Ela remete a Repressão outra vez – Eis o saldo (1968), de Antonio Manuel, em que o artista reuniu imagens da polícia perseguindo estudantes no centro do Rio de Janeiro.
Ao reapresentar o trabalho nos anos 1980, ainda sob os ecos da ditadura, Manuel recorreu a cortinas para proteger as fotografias da censura. As imagens, originalmente publicadas em jornais, ganharam tom de protesto contra o regime no trabalho.
Se antes as cortinas escondiam as imagens para protegê-las do Estado, agora as protegem para aumentar o desejo de vê-las. Já não é a censura oficial que está em jogo, mas a nossa própria autocensura.
Se antes podia, hoje não pode mais
O que é considerado publicável não é estático. No final dos anos 1990, bastava passar por uma banca de jornal para encontrar capas de ensaios nus e tabloides estampando violência explícita — os célebres “espreme que sai sangue”. Na televisão aberta, em programas dominicais comandados por Gugu Liberato ou Fausto Silva, corpos femininos seminus integravam o entretenimento da tarde.
“De repente fomos instruídos por uma certa cultura puritana norte-americana que se impôs mundialmente”, diz Dantas, referindo-se às plataformas digitais que passaram a ditar os limites do aceitável.
Nenhum dos 35 participantes enviou cenas explícitas de sexo. Em contrapartida, surgiram nudes e mamilos, frequentemente barrados pelos algoritmos das redes sociais.
Claudio Edinger apresenta uma fotografia feita em 1989 no Hospital do Juquery: um grupo de homens internados aparece ensaboado no momento do banho coletivo. A cena, simultaneamente íntima e institucional, oscila entre vulnerabilidade e exposição.
Wagner Schwartz exibe um registro de La Bête (2015), performance apresentada em 2017 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Inspirado na série Bichos, de Lygia Clark, o trabalho convidava o público a manipular o corpo nu do artista como se fosse uma escultura articulável.
A apresentação ganhou contornos de escândalo quando a imagem de uma criança presente na sala passou a circular na internet, deslocando o debate do campo da arte para o da moral pública.
Além de artistas e fotógrafos, a mostra reúne celebridades como Mariana Ximenes, Bárbara Paz e Zeca Camargo. “Uma pessoa como a Mariana Ximenes tem bilhões de imagens circulando na internet. Mas nenhuma delas é fazendo xixi”, observa Dantas, referindo-se à fotografia escolhida pela atriz.
Destaca-se também o registro selecionado por Marcelo Tas: o apresentador dorme no chão ao lado do cachorro. Ao fundo, uma pilha de roupas sobre a cadeira compõe uma cena doméstica sem filtro. Se em outro momento essa imagem poderia parecer banal, hoje ela destoa do ideal de vida meticulosamente editada que domina as redes sociais.
Artistas ligados a uma vertente mais conceitual tensionam a visibilidade por outros caminhos. Nuno Ramos apresenta uma imagem desfocada acompanhada de uma inscrição em braile — legível apenas para quem não enxerga e sabe decodificá-la. A obra inverte a lógica do olhar e do privilégio da visão.
Arthur Lescher incorpora o visitante ao próprio trabalho. Uma chapa de prata capta a silhueta de quem puxa a cortina, disparando um flash no instante da revelação. O gesto de ver torna-se também o de ser visto.
Os vieses da IA
Em busca de uma descrição neutra, os curadores recorreram a uma inteligência artificial para redigir os textos que acompanham as obras. O experimento, porém, revelou seus limites.
A tecnologia mostrou-se incapaz de decodificar plenamente certas imagens. Na fotografia de Kazuo Okubo — que retrata, de forma gráfica e delicada, a vulva de uma mulher —, a IA identificou um cálice. Foi necessária intervenção humana.
“Se coloco um olho supostamente neutro para enxergar isso, ele só será capaz de ver a partir da própria neutralidade”, afirma Dantas. “Talvez o que você esteja vendo não seja necessariamente aquilo que você sabe. Conhecimento empírico e cultura são coisas distintas.”
A ausência do celular reforça esse deslocamento do olhar. Sem o aparelho, não é possível registrar a obra para revisitá-la depois, nem percorrer a sala com a lógica apressada do scroll.
Cada trabalho exige um gesto: puxar a corda, aguardar a abertura gradual da cortina, permanecer diante da imagem até que ela se revele por completo. O processo leva de um a dois minutos por obra — cerca de quarenta minutos de atenção contínua para percorrer a mostra inteira.
“Sem o celular, devolvemos às pessoas a experiência de estar presentes diante da fotografia”, afirma Luciana Brafman, co-curadora da exposição, ao NeoFeed. “Se for para passar correndo, você perde as nuances. É preciso parar para realmente ver o que está ali.”


