Os juros brasileiros acabam de fazer novas vítimas, dessa vez, no andar de cima da economia. Raízen e Pão de Açúcar expõem ao mundo a verdadeira identidade da economia nacional: empresas com água no pescoço, esforçando-se para dar mais algumas braçadas enquanto aguardam uma queda real no preço do dinheiro por aqui.
O Brasil ocupa hoje o segundo lugar entre os países com os maiores juros reais do mundo — a taxa básica (Selic) descontada da inflação, que revela o verdadeiro custo do dinheiro. Esse indicador permanece acima de 7% ao ano desde janeiro de 2025 e hoje ronda os 9,4%. Ao longo desse período, já vem fazendo vítimas em série, principalmente entre pequenas e médias empresas.
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Em 2025, o país atingiu o infeliz recorde de 5.680 empresas em recuperação judicial, número 24,3% superior ao observado em 2024, segundo levantamento da consultoria RGF. Superou inclusive o pico observado em 2016, quando a crise econômica era evidente para todos.
O fenômeno espalhou-se por praticamente todos os setores — comércio, indústria, serviços e até o agronegócio, que acaba de bater também seu próprio recorde de empresas em recuperação. Durante muito tempo, porém, esse movimento permaneceu relativamente invisível para o grande mercado. Aparecia nos balanços, mas raramente nas manchetes.
Esse tempo acabou. Agora começam a aparecer os pedidos de socorro das gigantes brasileiras. Nesta terça-feira (10/3), a notícia que dominou o mercado foi o pedido de recuperação extrajudicial da Companhia Brasileira de Distribuição, dona da rede Pão de Açúcar.
A companhia informou ter firmado acordo com credores para apresentar um plano de reorganização envolvendo cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras sem garantia, com adesão inicial de credores que representam aproximadamente 46% dos créditos sujeitos ao processo — percentual suficiente para dar início às negociações formais que deverão reestruturar o perfil de endividamento da empresa nos próximos meses.
Poucas horas depois, novo corre-corre entre as gigantes brasileiras. A Raízen, de energia e etanol, protocolou seu próprio pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, já contando com a adesão de credores que representam mais de 47% dos créditos envolvidos.
Não se trata de empresas periféricas ou de negócios de nicho. São companhias que ocupam posições centrais em setores estratégicos da economia brasileira e cuja reorganização financeira dificilmente passaria despercebida em qualquer mercado relevante do mundo.
O único lado bom, se for possível encontrar um, é que tanto Raízen quanto GPA, dona do Pão de Açúcar, são empresas com bom histórico de pagamentos, que parecem ter entrado com os pedidos para reestruturação antes da corda arrebentar, e não como último recurso. Também é bom lembrar que os casos não têm nada com as falcatruas do banco Master, que deixaram um rastro pegajoso no mercado.
Quando empresas desse porte passam a renegociar passivos bilionários, o fenômeno deixa de ser episódico e passa a ser sintomático. Não se trata mais de um problema isolado de gestão ou de uma dificuldade específica de balanço. O que aparece, com nitidez crescente, é o peso de um ambiente financeiro que há tempo suficiente vem pressionando o setor produtivo de forma contínua.
A taxa básica de juros a 15% ao ano cumpre sua função de conter a inflação. Mas também altera profundamente a matemática das empresas. Projetos deixam de fechar, investimentos são adiados e as dívidas passam a consumir parcelas cada vez maiores do caixa.
As grandes companhias conseguem absorver esse impacto por mais tempo. Têm acesso ao mercado de capitais, estruturas de financiamento mais sofisticadas e relações bancárias consolidadas. Mas quando o ciclo de juros altos se prolonga, a conta inevitavelmente aparece — e aparece também entre os gigantes.
Quando até eles começam a reorganizar seus balanços para sobreviver a esse ambiente, o recado que chega ao mercado internacional é que não se trata apenas da dificuldade de uma empresa ou de um setor.
É preocupante que isso aconteça justamente quando a Bolsa brasileira dispara, impulsionada pelo fluxo de investidores estrangeiros que fogem do ambiente mais incerto dos Estados Unidos. Enquanto o Ibovespa bate recordes, a economia real pede socorro.
*Colaborou Henrique Bastos, economista e sócio da Wiser Investimentos.
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