As ações do GPA, dono das redes Extra e Pão de Açúcar, abriram o pregão desta terça-feira (10) em forte queda de 8,8%, após o grupo anunciar seu pedido recuperaAs ações do GPA, dono das redes Extra e Pão de Açúcar, abriram o pregão desta terça-feira (10) em forte queda de 8,8%, após o grupo anunciar seu pedido recupera

Na tentativa de sobreviver, Pão de Açúcar (GPA) repete o mantra: “o caixa é rei”

2026/03/11 22:27
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As ações do GPA, dono das redes Extra e Pão de Açúcar, abriram o pregão desta terça-feira (10) em forte queda de 8,8%, após o grupo anunciar seu pedido recuperação extrajudicial. A proposta envolve a negociação de cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras sem garantia, diretamente com credores, fora da Justiça. 

Diante desse movimento de recuperação do grupo e após assumir nas notas do último balanço que há “condições (que) indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”, voga o princípio fundamental do mercado financeiro e da gestão corporativa “o caixa é rei”, afirma Fernando Balotin, especialista em valuation, M&A e reestruturação de empresas da Quartzo Capital.

Em entrevista exclusiva ao Monitor do Mercado, o economista enfatiza a importância de recompor o caixa e equilibrar as obrigações de curto prazo, mesmo diante de um bom histórico de resultado operacional. Segundo o especialista, métricas de desempenho financeiro, como o Ebitda, nunca serão mais importantes que o caixa da empresa.

“O caixa se torna o indicador financeiro mais importante para esse processo e, quando a gente analisa a fundo as demonstrações financeiras, há indicativo de que a empresa não tinha sobra de caixa e que faltavam recursos par honrar com as obrigações que a empresa tinha do ponto de vista de amortização”, explica.

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Reflexo da situação atual do GPA, a agência de classificação de risco Fitch Ratings reduziu o rating corporativo para PCAR3 de “A”, que estava sob observação negativa, para “CCC”. Agora, a situação do GPA é de alto nível de endividamento.

Em relatório, a agência afirmou que a decisão foi motivada pelo aumento dos riscos relacionados ao refinanciamento da dívida, pela deterioração da liquidez da companhia e pela expectativa de que o fluxo de caixa livre (FCF) siga negativo no médio prazo, caso não ocorra uma redução significativa do nível de endividamento.

Quem entra no processo de negociação do Pão de Açúcar

Segundo comunicado ao mercado, o plano contempla apenas compromissos financeiros classificados como “quirografários”, ou seja, dívidas que não possuem garantias vinculadas. Essas obrigações também não estão relacionadas às atividades operacionais do grupo.

Fornecedores, locadores de imóveis, prestadores de serviços, clientes e funcionários não fazem parte do plano. De acordo com a empresa, esses compromissos continuam sendo pagos normalmente e não serão afetados pela renegociação.

“Essa medida é o início de um processo de reestruturação das nossas dívidas não operacionais. Ela não envolve pagamento a fornecedor, aluguel de loja ou salário de colaborador. A operação segue funcionando normalmente”, disse o novo CEO do GPA, Alexandre Santoro.

Principais credores envolvidos no acordo de recuperação extrajudicial

Entre os credores do acordo proposto pelo GPA estão grandes instituições financeiras e agentes fiduciários de títulos de dívida emitidos pela empresa.

Os principais são o Itaú Unibanco, detentor de debêntures da 20ª emissão com saldo de R$ 707,7 milhões; o banco holandês Rabobank, com dois contratos em euro que somam aproximadamente R$ 917 milhões; e a Vórtx, agente fiduciário das debêntures da 18ª emissão, com R$ 994,7 milhões.

Também aparecem na lista o BTG Pactual, com cerca de R$ 225,7 milhões, o HSBC, com R$ 206,3 milhões, e a Pentágono, agente fiduciário de certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) que totalizam R$ 563,8 milhões.

Alguns credores, como Vórtx, Itaú Unibanco Asset Management e Pentágono, ainda não haviam aderido ao acordo até o anúncio da empresa. A participação desses grupos pode ser determinante para que a empresa alcance o quórum necessário dentro do prazo de 90 dias.

GPA tem prazo de 90 dias para ampliar adesão à recuperação extrajudicial

Até o momento, o acordo já foi firmado com credores que representam cerca de 46% dos R$ 4,5 bilhões incluídos na proposta, dentro da exigência legal de adesão mínima de 1/3 das dívidas para que o plano seja apresentado.

No entanto, para que seja homologado, será necessário obter o apoio de credores que representem mais de 50% dos créditos envolvidos.

Com o protocolo do pedido, a companhia terá um prazo de 90 dias para avançar nas negociações com os demais credores. Durante esse período, os pagamentos das dívidas incluídas no plano ficam suspensos.

“O plano tem efeitos imediatos, prevê a suspensão das obrigações da companhia junto aos credores afetados e cria um ambiente seguro e estável para a continuidade das negociações por 90 dias”, informou o GPA em nota.

Particularidades do processo de recuperação extrajudicial

A recuperação extrajudicial é um mecanismo previsto na legislação brasileira que permite a renegociação de dívidas diretamente com credores, sem a abertura de um processo judicial.

Rodrigo Baraldi, advogado e consultor de M&A, explica que em contextos como o do GPA, a recuperação extrajudicial se torna um instrumento importante para preservar valor econômico ao permitir que empresas reorganizem seu passivo com negociação direta com credores, mantendo a operação funcionando e evitando processos mais traumáticos.

“Quando conduzida com transparência e racionalidade financeira, pode ser um caminho eficiente para estabilizar a empresa e prepará-la para um novo ciclo de crescimento”, conclui.

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Gigante do varejo deve enfrentar desafios no mercado de crédito

Considerando que ao admitir dificuldades de liquidez e entrar em um processo de reestruturação financeira, ainda que a do GPA seja extrajudicial, o mercado de crédito acende um alerta em relação à capacidade de pagamento, além de atrelar taxas mais altas e limitar o acesso ao crédito.

Apesar de o GPA ter grandes bancos como seus credores e da possibilidade de algum deles financiar o processo de reestruturação, Balotim avalia que o Pão de Açúcar deve sofrer com os efeitos do mercado de crédito, inclusive como o inevitável rebaixamento do rating bancário.

No entanto, o rebaixamento não deve chegar ao nível mais baixo, considerando que para chegar ao rating H (classificação de maior risco) as dívidas devem ultrapassar 360 dias, limite que o GPA não deve exceder, segundo o especialista, considerando que o stay period (180 dias) seja suficiente para reorganizar as dívidas de curto prazo.

Balotin avalia que a forte queda das ações PCAR3 no início do pregão desta terça-feira foi um movimento natural do mercado, reflexo da percepção sobre essas dificuldades que a empresa deve enfrentar. Também pesa o movimento de especulação diante da declaração de dificuldade de caixa e necessidade de corte de custos, fatores que somados inevitavelmente impactam a percepção de retorno dos acionistas e, consequentemente as ações listadas na B3.

Segundo o economista, essa percepção vai naturalmente reclassificar o valuation da companhia a um nível mais baixo.

Dívidas de curto prazo pesam sobre as contas do GPA

O plano de recuperação extrajudicial do GPA ocorre em um momento em que, segundo Balotin, a companhia já não tinha fôlego para conseguir a chamada arrolagem, ou seja, adiar algumas dívidas. Essa característica ficou evidente no balanço do quarto trimestre de 2025, que aponta queda do nível de endividamento, mas um aumento do endividamento de curto prazo.

O especialista destaca que o custo de serviço da dívida para o ano de 2026 esperado é acima de R$ 2 bilhões, o que exige uma melhora significativa de faturamento e de resultado comparado com 2025 para conseguir pagar o custo de serviço da dívida, visto que o GPA não gerou esse Ebitda superior a R$ 2 bilhões, o que evidencia o problema de caixa.

O diretor-financeiro do GPA, Pedro Albuquerque, que assumiu o cargo na semana passada, afirmou que parte das obrigações da companhia vence nos próximos meses. Segundo ele, cerca de R$ 500 milhões têm vencimento previsto para maio. Já valores entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão devem vencer em julho.

O executivo destacou que dívidas trabalhistas e tributárias não fazem parte do plano de recuperação extrajudicial e que essas obrigações seguem sendo tratadas separadamente pela companhia.

Albuquerque também afirmou que o processo não está relacionado a discussões antigas envolvendo a operação do Assaí, rede que já integrou o grupo.

Numa leitura mais ampla do contexto do GPA, Baraldi, afirma que o atual momento da companhia não é um fato isolado mas, sobretudo, uma realidade cada vez mais comum no mercado brasileiro, na qual empresas que cresceram em ciclos de capital abundante passam a ter necessidade de ajustar o balanço à geração real de caixa.

“Reestruturações financeiras desse tipo não são necessariamente sinal de colapso, mas sim de disciplina de capital. No longo prazo, empresas que enfrentam o problema cedo, negociam com credores e reorganizam sua estrutura financeira tendem a sair mais fortes e preparadas para novos ciclos de crescimento”, afirma o especialista.

Segundo Baraldi, a necessidade desse movimento do GPA também reflete o ambiente macroeconômico brasileiro dos últimos anos, que combina juros elevados, incerteza fiscal e gastos públicos elevados, que têm pressionado empresas de diversos setores.

Ele pontua que quando o custo do capital sobe e o ambiente de negócios perde estabilidade, estruturas financeiras que antes eram administráveis passam a exigir ajustes mais profundos, como é o caso do Pão de Açúcar.

Situação financeira do GPA

Na divulgação mais recente do balanço, referente ao quarto trimestre de 2025, o GPA informou que sua dívida líquida chegou a R$ 2 bilhões ao final do ano, considerando também recebíveis de cartão de crédito que ainda não foram antecipados.

O valor representa aumento de R$ 729 milhões em relação ao registrado no fim de 2024. Além disso, a companhia possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento previsto para este ano, sem considerar juros e outras amortizações.

O grupo também apresentou capital circulante negativo de R$ 1,22 bilhão. Esse indicador mostra que os compromissos de curto prazo superam os recursos disponíveis no curto prazo.

Nas notas explicativas do balanço, o grupo informou que existem “condições (que) indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”, acendendo um alerta no mercado.

Segundo analistas, além da renegociação com credores, a empresa pode buscar alternativas como novos empréstimos, aumento de capital ou venda adicional de ativos para reduzir o endividamento.

Histórico de reestruturação e venda de ativos

O GPA vem realizando um processo de reorganização desde 2021, com foco na redução da dívida e na simplificação de suas operações.

Nesse período, o grupo vendeu 71 pontos comerciais da bandeira Extra para o Assaí, se desfez de sua participação no Grupo Éxito, da Colômbia, e realizou vendas de imóveis e postos de combustível. De acordo com a companhia, essas operações geraram mais de R$ 1,5 bilhão em recursos.

Balotin destaca que a reestruturação do GPA vai além do setor financeiro, que abrange a renegociação com credores e a venda de ativos — o grupo vem promovendo mudanças do quadro diretivo e deixando evidente que há preocupação com a credibilidade e transparência, essenciais durante o processo. Esse movimento se reflete na revisão de seu posicionamento diante das obrigações com o mercado, especialmente por se tratar de uma empresa listada em Bolsa.

No entanto, segundo ele, os créditos do GPA junto aos credores não são tão fáceis de negociar, principalmente em se tratando de debêntures, por exemplo, que podem requerer a aprovação de cotistas.

Além disso, o economista avalia que a recuperação extrajudicial foi a melhor escolha para essa reestruturação do GPA, considerando a grande necessidade de capital de giro e do crédito com fornecedores, especialmente em se tratando de uma gigante do varejo.

Por outro lado, a preservação desse crédito junto a fornecedores não seria possível em um processo de recuperação judicial, uma vez que automaticamente eles seriam incluídos na lista dos grandes credores e o GPA deveria realizar os pagamentos à vista, revelando a fragilidade do caixa.

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No início deste mês, o GPA já havia informado ao mercado que estava em negociações com alguns credores para revisar dívidas financeiras e outras obrigações de curto prazo que não estavam relacionadas à operação diária da empresa.

Para conduzir o processo de renegociação, a companhia contratou o escritório Munhoz Advogados, especializado em reestruturação de dívidas.

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