O PT iniciou nesta 2ª feira (23.fev.2026) uma reação ao desgaste político provocado pelo desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio. A deputada Benedita da Silva publicou vídeo sobre fé e família. O vice-presidente do partido, Washington Quaquá, defendeu diálogo com conservadores. No Palácio do Planalto, a avaliação é que a crise teve impacto maior que o previsto, em ano pré-eleitoral.
A escola homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e levou à avenida uma ala com figuras conservadoras representadas em latas. O episódio gerou reação da oposição nas redes sociais e ampliou críticas ao governo.
Em vídeo publicado nas redes, Benedita disse que “Deus não pode ser instrumento de campanha política”. Sem citar o desfile, afirmou que cuidar da família significa “mais renda dentro de casa, conta de luz mais barata, gás garantido”. Encerrou com trecho bíblico: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
Assista ao vídeo (1min54s):
A mensagem foi direcionada ao eleitorado evangélico e a segmentos de perfil conservador, grupo em que o partido busca ampliar apoio para 2026.
Quaquá escreveu que o PT é um “partido popular” e que não pode deixar de dialogar com quem é conservador nos costumes. Disse que parcela significativa da população pensa dessa forma e “merece respeito”.
Dias antes, a Acadêmicos de Niterói foi rebaixada. O resultado causou desconforto entre petistas. O deputado Jilmar Tatto disse ao Poder360 que ficou “triste” com o desfecho, mas minimizou o temor de que a ala dos “neoconservadores em conserva” pudesse engrossar o caldo contra o governo.
A reação da oposição foi imediata e em várias frentes. O PL acionou o TSE contra Lula, argumentando que o desfile teve “inequívoco conteúdo político-eleitoral”. O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, disse que a agremiação foi transformada em palanque político e que a oposição adotará todas as medidas judiciais cabíveis na Justiça Eleitoral.
O partido Novo anunciou que pedirá a inelegibilidade de Lula assim que houver o registro formal de sua candidatura, com uma AIJE (Ação de Investigação Judicial Eleitoral) no TSE por abuso de poder político e econômico. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) disse que vai acionar o Ministério Público contra Lula e a escola. O TSE já negou os pedidos liminares apresentados até agora.
O governo negou irregularidades. A Secom disse que os recursos do carnaval são repassados à Liesa, não diretamente às escolas, e que não houve ingerência na escolha do enredo. O PT, em nota, disse que o desfile foi manifestação artística e que não há base jurídica para discussão sobre inelegibilidade.
Integrantes do entorno de Lula defenderam o desfile e negaram que a primeira-dama Janja Lula da Silva tenha influência na perda de pontos. A primeira-dama ia desfilar e desistiu de última hora. A avaliação é que o evento também teve efeito político favorável, apesar da derrota, e que a agremiação concorreu em desvantagem financeira.
O Poder360 apurou que a avaliação nos bastidores do governo contraria o otimismo de parte do partido. A crise foi considerada mais grave do que o esperado. A visão interna é de que o episódio alimentou uma narrativa que o PT ainda não conseguiu reverter: a de um partido distante dos valores e das preocupações cotidianas de parcelas relevantes do eleitorado popular.
A percepção é de que as eleições de 2026 serão disputadas com margem estreita. Nesse cenário, qualquer desgaste junto ao eleitorado religioso e de costumes conservadores tem peso. A conclusão, dentro do Palácio do Planalto, é que episódios como esse não podem se repetir. O partido precisa encontrar uma linguagem mais eficaz para falar com esse segmento antes que a campanha comece.
Os números explicam a urgência. Pesquisa PoderData de janeiro de 2025 mostra que 68% dos eleitores evangélicos desaprovam o governo Lula, enquanto apenas 26% o aprovam. Entre os católicos, a aprovação caiu de 62% para 48% em dois anos. Os evangélicos devem representar 35,8% da população brasileira em 2026, ante 32,1% em 2022. Em outubro de 2025, o próprio Lula reconheceu que o governo “não sabe falar com os evangélicos“.


