Líderes que cultivam o pensamento, respeitam o corpo e dão tempo ao sentido constroem culturas mais resilientes e capazes de inovar sem desumanizar SRENITY Líderes que cultivam o pensamento, respeitam o corpo e dão tempo ao sentido constroem culturas mais resilientes e capazes de inovar sem desumanizar SRENITY

Saúde, liderança e criatividade: você tem tudo o que precisa?

2026/02/07 11:00
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Líderes que cultivam o pensamento, respeitam o corpo e dão tempo ao sentido constroem culturas mais resilientes e capazes de inovar sem desumanizar — Foto: SRENITY STRULL-BBC-GETTY IMAGES Líderes que cultivam o pensamento, respeitam o corpo e dão tempo ao sentido constroem culturas mais resilientes e capazes de inovar sem desumanizar — Foto: SRENITY STRULL-BBC-GETTY IMAGES

Um equívoco tornou-se comum nos ambientes sociais: confundir eficácia com decisões rápidas. A aceleração virou virtude; a reflexão passou a ser entendida como demora. E no lugar do pensamento crítico, a superficialidade ganhou status, com “unanimidade” vendida como se fosse sinônimo de inclusão. À medida que agendas lotam e a atenção se fragmenta, cresce um custo invisível: a piora da saúde mental, perda de coerência ética e decisões cada vez mais reativas, ineficazes e desgastantes: a tríade do fracasso e do burnout.

A frase “Se você tem um jardim e uma biblioteca, você tem tudo o que precisa”, atribuída ao filósofo Cícero, ajuda a recolocar o eixo do problema e condensa uma intuição clássica: a boa vida — e, por extensão, a boa criatividade e a boa liderança— dependem de cultivo interior, tempo de integração e ação coerente no mundo.

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Cícero, orador e filósofo romano do século I a.C., trouxe a ética para o centro da vida pública: viver, para ele, era ter eixo e construir sustentação — não encenar excelência nem performar o tempo todo. Em sua tríade, a seguir, ele utiliza uma metáfora agrícola para falar de vida interior, pausa e ação.

Cultura animi, o cultivo do espírito. A palavra cultura vem do latim colere: cultivar, cuidar, habitar, raiz comum a agricultura e culto. Animus remete à mente, à intenção, ao sopro vital. Em termos simples, trata-se da coerência entre o pensamento, a emoção e o caráter antes de agir, a intenção.

Otium, o tempo de recolhimento e integração, o “ócio digno” (otium cum dignitate). Designa o tempo necessário para elaborar experiências, regular emoções e integrar sentidos. Não era um tempo vazio, da preguiça, mas do tempo preenchido por estudo, escrita, reflexão e maturação.

Negotium, a ação no mundo e o oposto de otium e a negação desse tempo criativo ((nec + otium). É o campo dos negócios, trabalho, da política, da gestão e das decisões que produzem efeitos concretos na vida coletiva.

O pensador romano nos deixou uma sacada essencial: otium não é fuga; é a nossa pausa digna num tempo de estudo, reflexão e cultivo do caráter, orientado pela ética e pelo bem comum. O negotium (o dever no mundo) não é o “inimigo” desse tempo: é o seu critério e a sua medida. Em linguagem de hoje, é nesse equilíbrio que se protege a coerência — e se favorece saúde mental e qualidade de julgamento (cultura animi).

A tríade, portanto, deixa um alerta claro: ação sem cultivo interior e sem pausa tende à impulsividade; cultivo sem ação vira abstração; pausa sem direção transforma-se em evasão. A saúde da vida pública — e da liderança — nasce do equilíbrio entre os três polos.

Antes de dialogar com a filosofia, a ciência precisou ajustar um viés de que decisões humanas seriam produto de uma razão abstrata, separada do corpo e das emoções. É nesse ponto que a obra do neurocientista português António Damásio se torna central. Em vez de opor razão e emoção, ele descreve a decisão como um processo integrado, que podemos ler por uma lente trina: corpo, mente e consciência.

O corpo, a base da regulação da vida: homeostase, estados viscerais, autonômicos e emocionais. O cérebro mapeia continuamente o organismo; esses sinais não atrapalham o pensar: eles dão direção ao que importa e ao que ameaça. A mente evolui sobre essa base corporal, operam memória, linguagem, leitura de contexto, previsão e imaginação, inteligência que compara cenários e calcula consequências. E por fim, a consciência, quando corpo e mente ganham autoria, se reconhece no tempo, organiza uma narrativa de valores, responsabilidades e propósito. A decisão deixa de ser mera reação e passa a ser escolha com coerência. Mas quando o sistema fica submetido a um estresse crônico, hiperestimulação e ausência de pausas, essa integração se fragiliza. O resultado tende a ser mais automatismo, pensamento mais estreito e menor sensibilidade ética. Em outras palavras: as decisões pioram e ficam incoerentes.

Se Damásio partiu da observação clínica para compreender como a vida se organiza diante do estresse e da adversidade, a salutogênese nasce de um esforço científico para explicar a resiliência humana em condições extremas. Aaron Antonovsky, sociólogo médico israelense, desenvolveu o conceito de salutogênese — “o que gera saúde” — a partir de uma pergunta decisiva: por que algumas pessoas permanecem saudáveis mesmo após experiências extremas de sofrimento? Ele estudou pessoas expostas a traumas intensos e perdas profundas, e observou que algumas preservavam vitalidade psíquica, funcionamento social e sentido de vida. A partir dessas observações, Antonovsky propôs saúde não como simples ausência de doença, mas como capacidade de manter coerência diante da vida, mesmo em contextos adversos. Sua tríade é conhecida como senso de coerência: o quanto alguém consegue entender o que vive (compreensibilidade), atribuir valor e sentido à experiência (significatividade) e gerir as demandas da vida (manejabilidade). E essa tríade dialoga diretamente com a forma como a Organização Mundial da Saúde define saúde: bem-estar físico, mental e social, e não apenas ausência de doença.

E, nesse sentido, à luz das três tradições aqui articuladas — Cícero, Damásio e Antonovsky, liderança saudável pode ser compreendida como uma extensão da própria saúde: a capacidade de sustentar coerência interna entre compreender, dar sentido e agir, mesmo sob pressão, e expressá-la externamente nas decisões, nas relações e na cultura construída ao redor, influenciando o mundo. Estes líderes tornam-se vetores de cultura, capazes de gerar confiança, inovação sustentável e ambientes que não adoecem pessoas. Seja quando educamos um filho, quando tomamos decisões em uma organização, quando participamos da vida pública, como votamos ou quando escolhemos como reagir diante de uma crise.

Porém, quando a coerência interna se rompe, surgem lideranças tecnicamente competentes, mas emocionalmente reativas; estrategicamente brilhantes, mas eticamente frágeis. E esta liderança incoerente traz riscos humanos, operacionais, reputacionais, contábeis e cobra juros altos: adoece vínculos, encurta horizontes, banaliza a ética e empobrece a qualidade do julgamento.

E o custo do desgaste se reflete nas planilhas. No mundo dos negócios, saúde mental e liderança criativa não é são só temas humanos — são variáveis econômicas. Estimativas apontam que depressão e ansiedade geram um custo anual na casa de US$ 1 trilhão em perda de produtividade e 4,2% do PIB mundial.

Liderar, nesse sentido, é um exercício contínuo de alinhamento interno que se expressa externamente em decisões mais saudáveis. E organizações tendem a espelhar o self de quem decide: quando o líder perde autoria e vive no automático, a cultura vira reativa; quando sustenta consciência, a cultura ganha direção.

Para que essas ideias permaneçam vivas e exequíveis, proponho três passos práticos de liderança para exercitar as tríades, aplicáveis à vida pessoal, organizacional e social:

· biblioteca: compreender (cultura animi / mente / compreensibilidade) reserve um tempo concreto para ler, sem telas e sem pressa. É um gesto de cuidado com a mente: amplia repertório, aprofunda a atenção e melhora a clareza do julgamento.

· jardim: dar sentido (otium / corpo / significatividade) caminhe e observe, de preferência em algum lugar com verde, mesmo que por poucos minutos. O corpo reencontra ritmo e presença, e o sentido volta a organizar o que importa.

· planilha: agir com autoria (negotium / consciência / manejabilidade) antes de decidir, respire e escreva: “o que é essencial agora, e qual é o próximo passo possível?”.

As tríades de Cícero, Damásio e Antonovsky convergem em um ponto central: liderar é ter e sustentar coerência sob complexidade, gerando competência prática e impacto direto na qualidade do julgamento, nas tomadas de decisões, na saúde das relações, favorecendo maior capacidade de atravessar crises, relações de confiança mais estáveis e ambientes propícios à inovação sustentável.

Em um mundo marcado por aceleração, ruído informacional e pressão constante por resultados, a verdadeira vantagem competitiva não está apenas em tecnologia ou capital, mas na qualidade humana de quem decide. Líderes que cultivam o pensamento, respeitam o corpo e dão tempo ao sentido constroem culturas mais resilientes e capazes de inovar sem desumanizar.

Recuperar essa arquitetura básica da liderança não é um retorno ao passado. É uma resposta contemporânea aos desafios do presente — e uma condição para que organizações, famílias e sociedades possam atravessar o futuro com saúde, dignidade e sentido.

A pergunta final, então, é simples e profundamente atual: você tem tudo o que precisa — ou precisa, antes, cuidar do seu jardim e da sua biblioteca?

Rubens Bollos é médico, PhD em Ciências da Saúde, counsellor em gestão de crise e saúde, e presidente-fundador da ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão)

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