A narcolepsia é uma doença caracterizada por uma necessidade súbita e incontrolável de dormir durante o dia — Foto: Unsplash
Setembro de 2000. A revista Nature Medicine publica o artigo científico “A mutation in a case of early onset narcolepsy and a generalized absence of hypocretin peptides in human narcoleptic brains” (em tradução livre, "Uma mutação em um caso de narcolepsia de início precoce e com ausência generalizada de peptídeos hipocretina em cérebros narcolépticos humanos"). O texto traz uma descoberta: a narcolepsia, doença caracterizada por uma necessidade súbita e incontrolável de dormir durante o dia, disseram os pesquisadores, tinha origem molecular.
Outubro de 2025. Durante 45 minutos numa sessão do Chicago Chest Medicine, pesquisadores apresentam o estudo “Advances in Sleep Medicine: OSA and Narcolepsy Updates Late-Breaking Scientific Abstracts" (em tradução livre, "Avanços na medicina do sono: atualizações sobre apneia obstrutiva do sono e narcolepsia - resumos científicos recentes"), no qual relatam os resultados positivos da fase 3 da pesquisa do uso da droga oveporexton para o tratamento da narcolepsia tipo 1.
Os 25 anos que separam um evento do outro estão ligados por um nome: o brasileiro Mario Pedrazzoli, 61 anos, que atualmente é professor livre-docente na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP). A descoberta fez parte de seu trabalho de pós-doutorado em Genética Molecular do Sono na Universidade de Stanford (EUA), realizado entre 1998 e 2000. Ele é um dos autores do artigo da Nature. Biólogo com mestrado e doutorado em Psicobiologia pela Universidade de São Paulo, Pedrazzoli me disse que, na época, achava que o tratamento para a narcolepsia ia demorar de 3 a 4 anos para sair.
Demorou um quarto de século. Considerado como uma terapia inovadora, o Oveporexton foi desenvolvido pela japonesa Takeda Pharmaceuticals, que deve submeter o pedido de aprovação à FDA (Food and Drug Administration) no início deste ano. “Eu comecei a me interessar pelo funcionamento do cérebro quando tinha 16 anos. Agora, sinto orgulho por fazer ciência que está voltando para a sociedade.”
Ainda não há cura para essa condição, que afeta cerca de 1 em 2.000 pessoas — como o apresentador americano Jimmy Kimmel e o ator brasileiro Leopoldo Pacheco. O novo medicamento, na forma de comprimido, é de uso vitalício. “Tenho uma sensação de trabalho cumprido.”
A narcolepsia é uma doença em geral detectada na juventude que segue pelo resto da vida, na qual a pessoa dorme em situações monótonas, parada no farol, numa palestra ou conversando com alguém. “À noite, elas têm insônia, porque dormem um pouquinho, acordam, dormem mais um pouquinho, acordam. É um caos para a vida da pessoa", diz Pedrazzoli.
Um sintoma mais grave é a cataplexia: quando o paciente narcoléptico se emociona, por exemplo, rindo de uma piada, seu corpo perde o tônus muscular, fazendo com que caia no chão. Não se trata de um desmaio, pois ela está consciente. Funciona mais ou menos assim: quando a gente está acordado, os músculos são afetados pela força gravitacional, mas o feedback neural mantêm o tônus muscular que impede que os músculos caiam. Quando a gente está no sono REM, aquele que nos permite sonhar, o sistema nervoso desliga esse mecanismo que mantém o tônus muscular e o corpo não consegue se mexer. É isso que acontece com a cataplexia, só que a pessoa está acordada.
Por que a narcolepsia acontece? O cérebro desses pacientes não tem a proteína hipocretina ou orexina, que regula a vigília, o que gera uma complexa reação, culminando no sono súbito. Esse é o componente genético descoberto por Pedrazzoli, cientista que continua interessado nos distúrbios do sono do ponto de vista da genética, da fisiologia e da cultura (interface entre sono, cultura e sociedade). Por isso, na coluna da próxima semana, volto com ele para falar do nosso sono do dia a dia. Como a idade muda nosso padrão de sono e o que podemos fazer para dormir melhor?
*Maria Tereza Gomes é jornalista, mestre em administração de empresas pela FEA-USP, CEO da Jabuticaba Conteúdo e mediadora do podcast “Mulheres de 50”


