Uma “tempestade perfeita” atingiu nos últimos cinco dias os preços internacionais do mercado de metais – como ouro e, principalmente, a prata - a ponto de essas commodities se descolarem dos fundamentos de oferta e demanda.
O rally em torno desses dois metais foi impulsionado na semana passada e prosseguiu na segunda-feira, 2 de fevereiro, por uma onda de dinheiro especulativo vindo da China e uma variação da cotação do dólar, numa disparada para cima e para baixo poucas vezes vista num curto intervalo de tempo nos mercados de commodities.
Os movimentos de preços na segunda, 2, foram mais dramáticos na prata - um mercado relativamente pequeno, com oferta anual avaliada em apenas US$ 98 bilhões aos preços atuais, contra US$ 787 bilhões no caso do ouro.
A cotação da prata abriu a semana despencando 10% em média, enquanto os contratos futuros do metal caíram 17% em Xangai e os de ouro recuaram mais de 15%. Na sexta-feira, 30 de janeiro, a cotação da prata já havia caído em mais de 30% e a do ouro, 9% - no pior dia em mais de uma década.
Outros metais também sofreram quedas acentuadas na segunda-feira, 2. O cobre recuou mais de 4%, para cerca de US$ 5,68 por libra, enquanto a platina caiu mais de 8%, para cerca de US$ 1.945 a onça. Os contratos futuros de alumínio em Xangai também recuaram cerca de 9%.
Os preços da prata e do ouro vinham crescendo desde o ano passado, atingindo status de investimento de segurança, na esteira da desvalorização do dólar. A prata, porém, esteve em destaque mais recentemente, após superar dramaticamente o ouro, ganhando apelidos como “ouro ao quadrado” ou "ouro com esteroides" por sua supervalorização.
Os preços do metal dispararam mais de 250% no último ano, chegando a US$ 114 por onça nas negociações em Nova York. No pico, a alta foi de 63% apenas em janeiro. O preço do ouro também teve salto: de US$ 2,6 mil para mais de US$ 4,3 mil por onça, representando uma valorização superior a 65% ao longo de 2025. Este ano, bateu o recorde de valorização, acima de US$ 5 mil a onça.
Na China, onde a prata é necessária para a produção de painéis solares e cobiçada por especuladores, os contratos futuros do metal atingiram patamares ainda mais altos, ultrapassando US$ 140 na quinta-feira, 29 de janeiro. A valorização da prata começou a desmoronar no dia seguinte, quando os preços despencaram 36% em relação às máximas históricas, ficando abaixo de US$ 80 a onça.
A queda da prata foi atribuída a dois fatores específicos, típicos de uma "tempestade perfeita": um deles, a recuperação do dólar após o anúncio do presidente Donald Trump de que Kevin Warsh seria o próximo presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA.
A escolha de Warsh, um linha-dura no combate à inflação, afastou temores de um presidente do Fed dócil à pressão por queda de juros por parte de Trump. Dias antes, os mercados de ouro e prata haviam experimentado forte alta após declarações de Trump de que a cotação do dólar estava “ótima” – o que causou forte queda da moeda americana.
Outro fator para a queda da prata na sexta-feira veio da China, onde a procura pelo metal sempre foi superior à de outros mercados internacionais. Analistas atribuíram o forte recuo a investidores chineses correndo para realizar lucros após a alta meteórica deste ano, visando ajustar suas posições.
"Antes da correção, sinais de alerta surgiram na terça-feira, quando investidores chineses enfrentaram dificuldades para sacar fundos de contas de negociação de ouro e prata alavancadas, e vários fundos chineses suspenderam as subscrições para controlar o sentimento de superaquecimento", escreveu Fabien Yip, analista de mercado da consultoria IG.
Em resposta à volatilidade, as principais plataformas de negociação, incluindo o CME Group e a Bolsa de Ouro de Xangai, aumentaram os requisitos de margem. Margens mais altas exigem que os investidores depositem mais dinheiro para manter suas posições. A medida visa arrefecer a especulação, mas muitas vezes força os investidores alavancados a venderem, aumentando ainda mais a pressão de baixa sobre os preços.
Ano-Novo chinês
A forte procura por prata e ouro aumentou em janeiro também por conta da chegada do Ano-Novo chinês - que será comemorado em 17 de fevereiro, uma terça‑feira. Essa data muda todos os anos porque o feriado segue o calendário lunar chinês, não o calendário gregoriano usado no Ocidente.
O Ano-Novo chinês é tradicionalmente a época de maior movimento para a compra de ouro e prata, pois as famílias chinesas trocam joias e moedas como presentes. O mercado estará fechado de 15 a 23 de fevereiro na China continental e de 17 a 19 de fevereiro em Hong Kong.
A demanda aquecida e a onda de compras de especuladores chineses - de investidores individuais a grandes fundos de ações que passaram a operar commodities -, acabaram levando metais, de cobre a prata, a novos recordes. Com a escalada dos preços, gestores de estratégias sistemáticas, como os “commodity trading advisors” que seguem tendências, entraram com força, adicionando ainda mais força à alta.
“Identificamos há cerca de três ou quatro semanas que isso havia se transformado em uma operação de momentum, não em uma aposta baseada em fundamentos”, disse Jay Hatfield, diretor de investimentos do hedge fund Infrastructure Capital Advisors.
Diferentemente do ouro - cuja oscilação é mais ligada aos humores da cotação da moeda americana -, a prata tem um forte componente de mercado a puxar sua valorização. Com a disparada dos preços do metal, os maiores fabricantes mundiais de painéis solares viram sua lucratividade despencar. Alguns estão aumentando os preços e acelerando os planos para substituir a prata por materiais mais baratos, como o cobre.
Um painel solar residencial médio de 400 watts contém cerca de 4 a 6 gramas de prata, de acordo com Sagar Chopra, analista de pesquisa da consultoria de energia Wood Mackenzie. “Durante anos, a prata representou de 5% a 7% do custo de fabricação de um painel solar”, diz Chopra. “Agora, tornou-se o maior componente de custo na produção de células solares, representando de 15% a 20%.”
Na semana passada, a polícia chinesa interceptou um carro com dois ocupantes que tentavam atravessar de Hong Kong para a cidade vizinha de Shenzhen, na China continental, com um contrabando de prata. No carro, esconderam 227 quilos de barras de prata, cujo valor de mercado estimado era de aproximadamente US$ 782 mil.
É provável que a dupla estivesse a caminho de um dos maiores mercados de metais preciosos da China, o Mercado de Ouro e Joias de Shenzhen Shuibei, na esperança de lucrar com a maior valorização da prata em uma geração. O mercado, onde os preços são negociados com um ágio em comparação com outros países, tornou-se o epicentro de uma mania por metais que cativou investidores em todo o mundo.
A corrida se estendeu para o mercado financeiro chinês. No final da semana passada, enquanto a cotação da prata desabava, o iShares Silver Trust, o maior fundo negociado em bolsa lastreado em prata, registrou mais de US$ 40 bilhões em volume negociado. Isso o colocou entre os ativos mais negociados do planeta — quando, poucos meses antes, raramente ultrapassava US$ 2 bilhões.
A valorização da prata ofuscou, mas não impediu a do ouro. A decisão recente do governo chinês de ancorar a redução de sua dependência global do dólar americano no ouro ajudou a abrir um novo ciclo de valorização do ativo – que subiu 30% desde janeiro e dobrou de valor nos últimos dois anos.
Em recente nota a clientes, o escritório de investimentos da UBS Global Wealth Management afirmou que continua a considerar o ouro "um ativo atraente e uma forte proteção".
A unidade do banco suíço manteve sua recomendação de sobreponderação para o metal, elevando seu preço-alvo para US$ 6,2 mil por onça para março, junho e setembro, ante os US$ 5.000 previstos anteriormente. A instituição prevê uma leve correção para cerca de US$ 5,9 mil até o final de 2026.


