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Por que dólar atingiu maior baixa em quatro anos e pode cair ainda mais

2026/01/31 05:01
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Após um ano de 2025 dramático, quando os anúncios de tarifas de importação do presidente americano Donald Trump fizeram o dólar desabar, os traders esperavam que 2026 seria mais calmo. Mas as últimas semanas abalaram esta expectativa.

Na terça-feira (27/1), o dólar caiu para o seu ponto mais baixo dos últimos quatro anos em relação a uma cesta de moedas. E atingiu o nível mais baixo de muitos anos em comparação com o euro e a libra esterlina, caindo 3% em cerca de uma semana.

Desde então, a queda diminuiu, mas os analistas preveem que esta recuperação provavelmente será temporária. "A maioria das pessoas acredita que o dólar deveria, poderá e irá se enfraquecer ainda mais este ano", afirma Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados financeiros do grupo ING. "Ainda não há consenso sobre quando, mas sim sobre qual direção ele irá tomar."

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O dólar mais fraco reduz o poder de compra dos americanos, como bem sabem os viajantes internacionais. E analistas afirmam que há o risco de que esta tendência, se continuar, alimente a inflação interna nos Estados Unidos, com o aumento dos preços dos produtos importados no país.

A queda também levantou questões maiores, como se o status do dólar como a moeda preferida do mundo (o que ajudou a manter os custos dos empréstimos nos Estados Unidos relativamente baixos por décadas) poderia estar ameaçado.

Mas o que está causando a queda do dólar e o que ela significa?

O que aconteceu com o dólar?

O dólar vem se enfraquecendo depois de mais de uma década de valorização, com ganhos especialmente altos entre 2020 e 2022.

Naquela época, o crescimento dos Estados Unidos após a pandemia e as taxas de juros relativamente altas aumentaram a demanda da moeda entre os investidores.

Mas, no ano passado, o índice do dólar, que acompanha seu valor em relação a uma cesta de moedas, caiu em quase 10%. Foi o pior desempenho desde 2017.

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Grande parte deste declínio ocorreu nas semanas que se seguiram ao chamado "Dia da Libertação" (2 de abril de 2025), com o anúncio das tarifas de importação de Donald Trump.

Neste mês, o dólar caiu ainda mais com o crescimento das tensões entre os Estados Unidos e a Europa em relação à Groenlândia.

E as perdas continuaram esta semana, em meio às especulações de que os EUA poderiam estar considerando ações que enfraqueceriam o dólar ainda mais, como a venda da moeda ao lado do Japão para ajudar a promover o iene, que também vem enfrentando suas próprias quedas.

Por que o dólar está caindo?

Analistas afirmam que a queda do dólar, em parte, é um sinal das preocupações do mercado em relação às políticas do governo Trump.

"Na minha opinião, os mercados estão reagindo à natureza meio que irregular das políticas deste governo, as escaladas e atenuações", segundo Robin Brooks, do Instituto Brookings e ex-estrategista de mercado de câmbio do banco de investimentos Goldman Sachs.

Brooks destaca similaridades entre as reações negativas sobre as tarifas e a Groenlândia.

Para ele, o declínio do dólar "é basicamente um reflexo dos mercados, dizendo que estas idas e vindas caóticas prejudicam os Estados Unidos, mais do que qualquer outra coisa".

A queda do dólar significa que os americanos que viajarem para o exterior verão seu dinheiro comprar menos — Foto: BBC News fonte A queda do dólar significa que os americanos que viajarem para o exterior verão seu dinheiro comprar menos — Foto: BBC News fonte

Embora os mercados parecessem inabaláveis frente às efervescentes questões geopolíticas que se prolongaram até este ano, a rápida escalada das tensões comerciais em relação à Groenlândia alterou este panorama, segundo Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e taxas de juros do grupo financeiro Macquarie.

"Acho que isso desencorajou as pessoas", segundo ele.

Wizman destaca que o dólar não só caiu este mês, mas as apostas de que a moeda irá sofrer oscilações futuras também aumentaram.

Existem ainda outros fatores, como o aumento das oportunidades de investimento no exterior e, nos últimos dias, o movimento de venda do mercado japonês de títulos.

Este movimento levou alguns traders a lançar apostas destinadas a aproveitar a diferença de valor entre o iene e o dólar.

Comentários do secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, negando a intervenção dos Estados Unidos para ajudar o Japão, ajudaram a estabilizar o dólar esta semana. Mas analistas afirmam que ainda há incertezas em relação a quais ações o governo Trump poderá tomar em seguida.

Para onde vai o dinheiro?

A saída dos investidores do mercado do dólar ajudou a alimentar a alta do preço do ouro.

A cotação do metal dobrou no ano passado, com os investidores buscando um lugar de baixo risco para investir seu dinheiro.

E, embora outras moedas nacionais aparentemente tenham lucrado pouco com o redirecionamento de fundos no ano passado, existem sinais de que esta situação pode estar começando a mudar.

O euro e a libra foram algumas das moedas que viram seus valores avançarem em relação ao dólar em janeiro. E as moedas de 11 entre 19 mercados emergentes, acompanhadas pela empresa de consultoria Oxford Economics, também se valorizaram em mais de 1%.

Os investidores globais também podem estar saindo dos Estados Unidos. Fundos de pensão da Holanda e da Dinamarca estão reduzindo suas posições no mercado de bônus do tesouro americano.

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Mas Turner acredita que os mercados ainda estão muito distantes de uma "completa narrativa Sell America", ou seja, de redução da sua posição de ativos dos Estados Unidos.

Ele destaca que a ação de venda de ativos americanos praticamente se limitou ao dólar.

Turner e outros observam que o mercado de ações dos Estados Unidos ainda flutua em meio a recordes de alta. E as movimentações no mercado de dívida do governo americano têm sido relativamente contidas.

Ainda assim, o ING espera que o dólar caia mais 4% a 5% este ano, à medida que aumentam as perspectivas de crescimento fora dos Estados Unidos.

Trump realmente quer um dólar mais fraco?

No momento, a queda do dólar permanece em níveis que provavelmente farão com que o impacto para os consumidores americanos se mantenha como "ruído", segundo Brooks.

Mas o que irá acontecer em seguida depende, em parte, do desempenho econômico dos Estados Unidos e da rapidez com que o Federal Reserve (o Banco Central americano) venha a baixar as taxas de juros.

Trump montou uma intensa campanha pela redução mais rápida das taxas de juros e já se esperava que ele indicasse para chefiar o banco alguém mais favorável a essas exigências.

O presidente americano nomeou nesta sexta-feira (30/1) o economista Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no comando do Fed.

"Conheço Kevin há muito tempo e não tenho dúvidas de que ele será lembrado como um dos GRANDES presidentes do Fed, talvez o melhor. Ele é perfeito para o papel e nunca decepciona", escreveu Trump na rede social Truth Social.

A indicação de Warsh ainda precisa ser confirmada pelo Senado americano.

Se os juros realmente caírem, a cotação do dólar poderá diminuir ainda mais, com os investidores buscando retornos mais altos em outros países.

Mas a Casa Branca poderá considerar esta queda uma boa notícia. Trump e outras autoridades do governo já se posicionaram favoráveis à ideia de um dólar mais fraco, o que poderá aumentar a competitividade das exportações americanas.

"Não parece bom, mas você ganha muito mais dinheiro com um dólar mais fraco... do que com um dólar forte", declarou Trump, em julho passado.

Questionado sobre as quedas esta semana, o presidente afirmou achar que a moeda está "indo muito bem".

Para Brooks, a queda sustentada do valor do dólar poderá ajudar a impulsionar as empresas americanas. Mas ele alerta que os ganhos podem ser limitados se esta queda ocorrer pelas "razões erradas".

Para ele, se o dólar cair graças a um veredito do mercado sobre políticas ruins, "isso provavelmente é um sinal muito importante".

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