Como qualquer criança que cresceu na década de 1970, o músico paulista Marcelo Bonfá teve nos gibis uma companhia constante. Preferia Disney, Maurício de Sousa, a turma dos Smurfs e Hanna-Barbera, além dos heróis japoneses da TV, aos super-heróis americanos da Marvel e da DC. Dessa paixão nasceu o gosto pelas artes gráficas, que preservou por toda a vida.
Adulto, o baterista chegou a exercitar seu talento nas capas de dois discos e nos encartes da Legião Urbana, banda que fundou em 1982 com Renato Russo e Dado Villas-Boas e que existiu até 1996, quando o cantor e compositor Russo morreu. Foi há cerca de dez anos, em 2015, porém, que Bonfá tomou uma decisão inusitada: escrever e ilustrar sozinho, em quadrinhos, a história do grupo sob seu ponto de vista.
Bonfá destaca que nunca havia tido uma experiência antes com HQs e logo descobriu que esse tipo de narrativa é mais difícil de criar do que parece. A ajuda da tecnologia o salvou, destaca.
“Aprendi fazendo. É tudo complexo, ainda mais sendo autobiográfico, porque envolve outras pessoas e histórias e como se expressa isso no traço”, afirma ele, em entrevista exclusiva ao NeoFeed.
Dessa aventura artística que durou quase dez anos nasceu o livro Minha Banda Preferida de Todos os Tempos, que sai pela editora gaúcha Braza. A obra em edição de luxo pode ser vista como candidata a um dos melhores lançamentos do ano, pois o autor surpreende pelo domínio narrativo dos quadrinhos e pela capacidade de síntese para contar uma história singular na música brasileira.
Marcelo Augusto Bonfá nasceu em Itapira, no interior paulista, onde viveu até os 12 anos. Em 1977, mudou-se com a família para Brasília, após a transferência do pai, funcionário do Banco do Brasil. A adaptação na capital foi rápida e muitos dos novos amigos, vários deles do Rio de Janeiro, tinham interesse por música. Desse grupo surgiriam bandas como Plebe Rude, Capital Inicial, Metralhaz e Blitx 64, entre outras.
Em 1982, Renato Russo o convidou para formar a Legião Urbana. Em seguida, entrou Dado Villas-Boas. O resto virou a história que ele quis contar.
Após o fim da banda, seguiu carreira solo e lançou seis discos. Em 2015, reuniu-se novamente com Dado para celebrar os 30 anos do primeiro álbum da Legião, em uma turnê intitulada Legião Urbana XXX Anos, com André Frateschi nos vocais. O sucesso levou a novas turnês, em 2018, para comemorar os álbuns Dois e Que País é Este.
Mas nem tudo aconteceu sem percalços para eles. Uma história ficou de fora de sua graphic novel. Desde 2013, Bonfá e Dado enfrentam um impasse jurídico contra Giuliano Manfredini, filho e herdeiro de Renato Russo, que entrou na Justiça por causa do uso da marca e do legado da Legião Urbana. Em 2021, o processo chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, onde permanece ainda sem desfecho.
Os detalhes dessa briga e, principalmente, sua história na Legião e o processo de produção do seu livro, ele comenta na entrevista a seguir:
Você levou uma década para fazer este álbum em quadrinhos?
Por aí. Essa história começou em 2015, quando comprei um iPad Pro, que facilitou minha vida, uma vez que permitia desenhar na tela. Aprendi tudo do zero. Entre esperas em aeroportos e hotéis ficava desenhando.
Desde o início você tinha definido que contaria a sua história e da banda?
Sim, a galera que é fã da Legião e tem contato comigo sabe que eu devia esse projeto há muitos anos. Eu falava que ia fazer e nada. Mas cada coisa tem seu momento. E o meu foi a invenção dessas tecnologias.
Você seguiu um pouco de intuição para fazer a HQ?
Sim, não tenho a técnica de roteirização. Acho que me saí bem com isso, pois passo por todos esses momentos da Legião e também falo de minha origem no interior de São Paulo, a mudança para Brasília, como comecei a tocar. Como tinha de ter 200 páginas, muitos desenhos não usei. Ao mesmo tempo, arrumei e melhorei os traços. Enfim, foi trabalhoso para caramba, mas também gratificante, divertido.
É comum que as pessoas pensem em contar sua história em livro. Por que você escolheu fazer isso em quadrinhos?
Porque minha parada é visual, né? Meu lance é desenho, mais do que escrever. Quer dizer, tenho letras de minha autoria. Eu sempre curti essa coisa dos storyboards, fiz alguns para músicas da Legião, como Faroeste Caboclo. Mas fui descobrir o quadrinho não infantil quando comecei a desenvolver este trabalho, procurei conhecer alguns estilos desses artistas malucos franceses que passei a curtir.
Você é sincero em várias passagens, mas teve cuidado de não magoar as pessoas?
Sim, eu queria que fosse um livro lindo, que ficasse na estante, sobre a mesa. Mas não podia fugir de certos assuntos. Tomei cuidado de ter respeito com as pessoas, como Negrete [Renato Rocha] e Renato [Russo], que não estão aqui para falar. É complicado, prefiro não ter problema, entende?
Sua história dedica uma passagem longa sobre a saída do primeiro baixista da banda, Negrete. Era uma explicação que queria passar aos fãs de que ele deu motivos para ser demitido da Legião?
Fiz isso porque ele está envolvido em tudo, porque fez parte da banda em um bom momento (nos três primeiros discos) e porque isso envolvia diretamente a minha performance. Em banda de rock, a cozinha é baixo e bateria, essa é a base de tudo. Aconteceu que Renato cortou os pulsos antes de gravar o primeiro disco e meu chão caiu. Eu tinha 18 anos e tive de conseguir um baixista.
E veio a ideia de chamar Negrete...
Exato. Ele era da nossa turma, mas de uma ala diferente, gostava de hardcore, não era do punk-rock como nós. Eu não sabia se isso impactaria nas nossas gravações. E ele fez toda diferença do mundo.
De que forma?
Ele não era um cara sucinto nas notas como Renato. A gente começou com uma coisa de mantra e Negrete chegou botando nota e o dedo em tudo quanto era lugar. Isso mudou o groove das coisas todas e a gente só foi entender isso no dia a dia, na prática, até o momento em que não estávamos mais compondo juntos do primeiro para o segundo disco.
A coisa desandou aí com ele?
Quando fomos gravar o segundo disco, a gente não tinha sintonia para fazer tudo, porque Negrete não acompanhava. “Vou levar para casa a ideia e depois eu volto”, ele dizia. Eu insistia: “Toca, cara, se você não fizer isso, eu vou fazer o quê? Eu sou o baterista, lembra que eu preciso de você?”. A coisa degringolou geral, ele já não ia mais aos ensaios. Até o dia em que ele não estava lá, alguém da gravadora chegou para Renato e falou: “Olha só, se a pessoa não está colaborando, tchau”. Achei ótimo porque achava que só eu estava sendo prejudicado.
A única passagem sobre drogas foi o encontro no hotel de vocês com Raul Seixas?
No meio do caminho, achei uma maneira de não tocar especificamente em que tipos de drogas a gente estava usando ou não. Senão, seria o livro inteiro sobre isso, embora nunca fôssemos além de um baseadinho aqui, um álcool ali, porque a gente nunca foi de excessos nessa parte, todo mundo teve bom senso, ninguém morreu drogado, de overdose.
Por que seu livro vai até os quatro primeiros álbuns e pula para a morte de Renato Russo?
Eu quis focar no momento mais intenso meu em relação à banda porque, assim, depois desses discos, Renato soube que era soropositivo e começou a ter problemas. Ao mesmo tempo, bebia demais em alguns momentos. A partir daí, ficou assim: mais do mesmo de uma forma meio chata. Os três discos seguintes são legais, porque a gente se encontrava no estúdio, trocava ideias. E eu não estava mais a fim de me estender nessa história, ficar contando o que todo mundo já sabe.
Outro ponto que você deixou de fora foi a briga judicial com o filho de Renato. Por quê?
Porque isso é uma idiotice, achei que não tinha por que ficar entrando nisso. O cara está dando tiro no pé dele mesmo, deixa ele. Nossos advogados resolveram muito bem isso tudo, ganhamos em todas as instâncias, só que isso não acaba. Foi um momento complicado quando me deparei com essa situação, que estourou como uma bomba.
Foi tudo repentino?
Começaram a acontecer coisas estranhas. A gente queria tocar e notamos que estávamos sendo meio cerceados, as pessoas que queriam fazer projetos com a gente tinham dificuldades. E fomos descobrir que havia alguém embarreirando. Tivemos de entrar numa seara, a jurídica, que não era nossa, onde tudo é bem complexo. Precisei entender essa linguagem jurídica para ajudar. Explicar o óbvio pode ser bem complicado, sabe?
E se tornar surreal, até...
Sim, foi o que aconteceu conosco, é Kafka total. A Legião nasceu como uma banda qualquer, podia se chamar qualquer coisa. Mas aconteceu que o nome tomou outra dimensão depois de anos de trabalho, da entrega das nossas vidas. Então, todo valor que tem essa marca é em função do que eu, Renato e Dado fizemos. Senão, não valia nada. O interesse de alguém por isso é porque tem valor e isso vem do que construímos. É muito louco querer excluir a gente disso.
A Legião é um bom negócio ainda hoje?
Sim, a receita vem de direito autoral e nossas músicas tocam para caramba até hoje. Graças a Deus, nossa obra está revitalizada. O que encontro hoje de crianças e adolescentes que são fãs da banda é impressionante. Eles descobriram a Legião porque o que fizemos é real, visceral, orgânico, são pessoas que perceberam que o que está sendo feito hoje na música é automático, não tem alma, não tem nada.
Quanto à marca rende por ano para vocês?
Não sei. Nem paro para pensar, não tenho a menor ideia. Não sou um cara de luxos, mas vivemos de direitos autorais. Tem as divisões, direitos artísticos, direitos conexos, de execução. São vários. Eu sou músico e compositor, as letras são de Renato e o resto é dividido entre as partes. Enfim, tem um monte de continhas para fazer.
O que você diz quando falam que vocês construíram algo realmente especial, que fez toda a diferença para uma época?
É difícil falar sobre isso. A gente é trilha sonora deste País em momentos bem significativos da história política, social, econômica. E essa trilha toca hoje marcando vidas. A banda sempre teve uma baita química, a gente se entregava realmente. Fico orgulhoso de ser reconhecido por uma coisa pela qual dei minha vida. Eu acreditava em tudo, na letra, na mensagem. Claro que a gente não tinha dimensão do que viria, mas a gente sempre se achou a melhor banda de rock do Brasil. A gente estava acima de todas com um letrista como Renato.
Isso fazia com que vocês tentassem se superar a cada disco?
Sem dúvida.


