Uma salamandra axolote no Centro de Terapias Regenerativas na Universidade de in Dresden, Alemanha — Foto: Arno Burgi/picture alliance via Getty Images
Os axolotes estão em toda parte. Viraram bichos de pelúcia, estampam roupas, aparecem em jogos como Minecraft e Fortnite, inspiram personagens de animação e até figuram na cédula de 50 pesos do México. Mas há um paradoxo no centro desse sucesso: quanto mais famosos se tornam, mais raros ficam em seu habitat natural.
Reportagem do The Guardian mostra como a salamandra nativa do México se transformou em um símbolo global da cultura pop ao mesmo tempo em que caminha para o desaparecimento na natureza.
Uma salamandra Axolote em aquário de Madri, na Espanha — Foto: Marcos del Mazo/LightRocket via Getty Images
Com aparência juvenil permanente, sorriso largo e guelras externas que parecem plumas, o axolote reúne tudo o que a cultura digital valoriza: traços “fofos”, fácil antropomorfização e alto potencial de reprodução comercial. O resultado é um fenômeno de mercado.
Mais de mil produtos com a imagem do animal estão listados apenas no site do Walmart. Ele aparece em brinquedos, roupas, luminárias, objetos escolares e campanhas publicitárias. Segundo The Economist, o axolote se tornou uma “megastar global”.
“Eles têm esse efeito imediato: você olha e sorri de volta”, diz Nicole Rowe, que mantém um centro de resgate de axolotes no Reino Unido e abriga cerca de 30 exemplares em casa.
O fascínio não é só estético. Axolotes são conhecidos por uma habilidade rara no reino animal: conseguem regenerar membros, órgãos internos e até partes do cérebro. Essa capacidade os transformou em objeto central de pesquisas em medicina regenerativa.
Luminária infantil no formato de axolote — Foto: Divulgação
“A aparência chama atenção, mas quando você entende o que eles conseguem fazer biologicamente, é impressionante”, afirma Aida Rodrigo Albors, pesquisadora da Universidade de Edimburgo, que estuda regeneração de tecidos a partir do axolotl.
O animal também nunca passa pela metamorfose típica dos anfíbios: cresce, vive por décadas e permanece com características larvais — um detalhe que reforça sua aura quase mítica.
Participante do programa The Masked Singer se apresenta usando uma fantasia de Axomolote — Foto: Andreas Rentz/Getty Images
Enquanto a espécie prospera em aquários, jogos e algoritmos, sua situação na natureza é dramática. O axolotl é hoje criticamente ameaçado de extinção.
Seu último reduto natural é o sistema de canais de Xochimilco, no sul da Cidade do México. Em 1998, havia cerca de 6 mil axolotes por quilômetro quadrado. Em 2014, esse número caiu para apenas 36.
Urbanização, poluição da água e a introdução de peixes predadores, como carpas e tilápias, devastaram a população selvagem.
“O axolote doméstico e o selvagem são praticamente animais diferentes”, afirma o ecólogo Luis Zambrano, que estuda a espécie há 25 anos. “O selvagem é marrom, discreto, não sorri — e está desaparecendo.”
Para Zambrano, o sucesso digital do axolote cria um risco adicional: a sensação de que o animal está seguro porque existe em versões virtuais e comerciais.
Axolotls são vistos em um tanque no lago Xochimilco, na Cidade do México — Foto: Gerardo Vieyra/NurPhoto via Getty Images
“Estamos criando um mundo paralelo”, diz. “Se eu tenho o axolote no jogo, no TikTok ou na camiseta, parece que não importa se o real está sumindo.”
A preocupação aumenta com a proximidade da Copa do Mundo, que terá o axolote como mascote em jogos realizados na Cidade do México. O medo é que Xochimilco seja tratado apenas como atração turística, e não como um ecossistema ameaçado.
O contraste com outros símbolos globais da conservação é inevitável. “A popularidade do panda levou a China a criar áreas de proteção reais”, diz Zambrano. “No caso do axolote, a fama ainda não se converteu em preservação.”
Entre pelúcias, avatares e memes, o “monstro da água”, que é como seu nome de origem asteca pode ser traduzido, se tornou um espelho curioso do nosso tempo: celebrado, compartilhado, consumido. E, infelizmente, ignorado onde mais importa.


