O presidente dos EUA, Donald Trump, parece disposto a levar ao pé da letra sua “Doutrina Donroe” – de assegurar a hegemonia americana no Hemisfério Ocidental.

No domingo, 4 de janeiro, um dia após a operação militar dos EUA na Venezuela para capturar e tirar do país o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, Trump voltou a ameaçar anexar a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca, situado no Círculo Polar Ártico.

"Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional, neste momento ela está repleta de vários navios russos e chineses”, disse Trump, a repórteres, a bordo do Air Force One, referindo-se à localização geoestratégica da inóspita ilha, que ocupa um vasto território - quase quatro vezes maior que a França e cerca de 25% do tamanho do Brasil –, onde vivem apenas 55 mil habitantes.

Os motivos da obsessão de Trump em anexar a Groenlândia são conhecidos. Controlar a ilha daria aos Estados Unidos um posto avançado em um corredor naval de importância crucial que liga o Oceano Atlântico ao Ártico.

Além disso, a Groenlândia possui enormes reservas de petróleo e, principalmente, de minerais de terras raras - componentes vitais para a fabricação de baterias, celulares, veículos elétricos e outros itens que utilizam tecnologias avançadas. O mercado global desses minerais é controlado pela China.

O fato de parte do território da ilha estar localizado no Hemisfério Ocidental está dando um verniz de justificativa para Trump invocar a Doutrina Donroe para anexar a Groenlândia. Mas coube à primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, revelar qual seria o real objetivo do presidente americano por trás da ameaça: acabar com a Otan, a aliança militar entre EUA e Europa formada após a Segunda Guerra.

"A comunidade internacional como a conhecemos; as regras democráticas do jogo; a Otan, a aliança defensiva mais forte do mundo — tudo isso entraria em colapso se um país da Otan decidisse atacar outro", advertiu Frederiksen.

O Artigo 5º da carta fundadora da Otan considera uma ofensiva militar contra um país-membro como um ataque a toda a aliança. Como EUA e Dinamarca fazem parte da Otan, o artigo citado não poderia ser utilizado e o tratado, na prática, seria anulado - afinal, nenhum aliado defenderia a Dinamarca de um ataque americano.

Assustados com a possibilidade de Trump de levar adiante a ideia, líderes europeus reagiram nesta terça-feira, 6 de janeiro, com uma declaração conjunta, afirmando que a segurança no Ártico deve ser alcançada coletivamente.

“O Reino da Dinamarca – incluindo a Groenlândia – faz parte da Otan”, diz o comunicado, divulgado pelo gabinete da primeira-ministra da Dinamarca na rede social X, assinado por Frederiksen, pelo presidente francês Emmanuel Macron, pelo chanceler alemão Friedrich Merz, pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, bem como pelos líderes da Itália, Espanha e Polônia.

“A segurança no Ártico deve, portanto, ser alcançada coletivamente, em conjunto com os aliados da Otan, incluindo os Estados Unidos, defendendo os princípios da Carta da ONU, incluindo a soberania, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras. Esses são princípios universais e não deixaremos de defendê-los”, acrescenta o comunicado.

Assédio

Trump vem falando em anexar a Groenlândia desde a campanha eleitoral, no ano passado. “Embora exista uma boa possibilidade de conseguirmos resolver a situação sem o uso da força militar, não descarto nenhuma opção”, avisou o então candidato republicano.

Após ser eleito, mas ainda antes da posse, Trump tratou de começar a pressionar o governo dinamarquês e de outros países europeus. Ainda em 2024, enviou seu vice-presidente, JD Vance, sem ser convidado, à Groenlândia para “inspecionar” o território.

Na época, Trump tentou ganhar adeptos sugerindo que os EUA poderiam comprar a ilha, o que foi recebido com indignação por líderes europeus e pela população da Groenlândia – pesquisa divulgada no início do ano passado apontou 85% de rejeição à ideia.

Pouco antes do Natal, Trump nomeou um enviado especial, o governador republicano da Louisiana, Jeff Landry. "É uma honra servi-lo nesta posição voluntária para fazer da Groenlândia parte dos EUA", disse Landry, voltando a irritar líderes europeus.

O fato é que sempre houve um fascínio no círculo ultraconservador de Trump em relação à Groenlândia. Peter Thiel, cofundador do PayPal, por exemplo, deseja estabelecer "estados em rede" com tecnologia criptográfica em territórios subdesenvolvidos. Ele investiu na Praxis, uma startup que visa a justamente isso e que já explorou a Groenlândia.

O embaixador de Trump na Dinamarca, Ken Howery, foi cofundador do PayPal com Thiel e Elon Musk. Além de agradar aos libertários, a anexação da Groenlândia seria bem recebida pelos ideólogos do MAGA - movimento político linha-dura da direita republicana -, já que acabaria com a Otan de uma só vez.

A bem-sucedida operação militar americana na Venezuela deu impulso para trazer a Groenlândia de volta para a pauta do dia na Casa Branca - uma resistência militar seria improvável por parte da Dinamarca, cujas Forças Armadas têm efetivo total de 9 mil homens.

Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump, afirmou que a Groenlândia pertence “por direito” aos Estados Unidos, sugerindo que o governo americano poderia tomar o território se quisesse.

“A verdadeira questão é: com que direito a Dinamarca reivindica controle sobre a Groenlândia? Qual é a base de sua reivindicação territorial? Qual é a justificativa para considerar a Groenlândia uma colônia da Dinamarca?”, disse Miller, sem esconder o cinismo.

A Dinamarca controla a Groenlândia há aproximadamente 300 anos e, em 1916, os Estados Unidos reconheceram formalmente os interesses dinamarqueses na Groenlândia em troca das Índias Ocidentais Dinamarquesas, que se tornaram as Ilhas Virgens Americanas.

A Groenlândia conquistou autonomia em 1979, dando à população o controle sobre a maior parte de seus assuntos internos. Desde 2009, os groenlandeses têm o direito de realizar um referendo sobre a independência.

Mas a Dinamarca ainda controla a política externa, a defesa e outros aspectos da governança da ilha, que é amplamente dependente economicamente do governo dinamarquês, de quem recebe um enorme subsídio anual que financia escolas, gás barato e serviços sociais.

Negociações

Os governos da Dinamarca e da Groenlândia vêm há meses tentando negociar com o governo Trump uma solução satisfatória para a Casa Branca. Eles ofereceram aos EUA a opção de aumentar sua presença militar na Groenlândia, onde já mantém uma base e onde tropas são destacadas há muito tempo, mas a proposta foi rejeitada.

Uma fonte do Departamento de Estado citada pelo portal Politico afirma que não seria difícil para Trump obter concessões do governo dinamarquês sem necessariamente anexar a Groenlândia.

“O problema é que Trump ficou convencido de que a 'Doutrina Donroe' é dele”, disse a fonte ao Politico. “Ele está muito focado nisso agora. E é difícil chegar a um acordo com os dinamarqueses quando Trump acha que pode simplesmente tomar o controle.”

Não são apenas os europeus que estão indignados com as ameaças de Trump. “Todos podemos concordar que Maduro era uma pessoa ruim, mas isso é um nível de insanidade completamente diferente — não tem qualquer fundamento na realidade”, disse Rufus Gifford, que foi embaixador dos EUA na Dinamarca, durante o governo do presidente Barack Obama.

Segundo ele, os assessores de Trump “têm egos enormes” e não se importam com o Estado de Direito, alianças, história, tratados e confiança — “conceitos fundamentais que fizeram dos Estados Unidos o que são”.

“Todos os membros do Congresso deveriam estar protestando veementemente contra isso; e se não o fizerem, são cúmplices do que pode ser a ruína do Ocidente como o conhecemos”, advertiu Gifford.

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