Logo após a ação contra o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, no sábado (3), o governo dos Estados Unidos emitiu sinais de que esse pode ser apenas um primeiro passo para um desejado domínio sobre as Américas.
Na segunda-feira (5), Donald Trump indicou que a Colômbia pode ser um próximo alvo, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, mencionou a pressão sobre Cuba, e uma postagem oficial do Departamento de Estado deixou clara a nova perspectiva regional: “este é o nosso hemisfério”.
Para especialistas em relações internacionais ouvidos pela Bloomberg Línea, a Venezuela se tornou um teste decisivo da nova política de segurança nacional do governo Trump. Esse novo projeto se baseia na retomada explícita da Doutrina Monroe e na reorganização do sistema internacional em esferas de influência das grandes potências.
Para Anthony W. Pereira, diretor do Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies e professor de ciência política da Tulane University, a mudança vai além da Venezuela.
“O resultado dessa ação provavelmente vai ser levado em conta para decidir o que vem depois em termos de tratar a América Latina como quintal dos EUA”, disse.
Segundo ele, o governo americano precisa demonstrar eficácia prática para legitimar a mudança de rumo. “Isso é um teste dessa nova política de segurança nacional. Eles precisam da aparência de que está funcionando para mostrar que esse vai ser o jeito como os Estados Unidos vão lidar com a América Latina a partir de agora”, afirmou.
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A leitura de Pereira é complementada por Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, que analisou a perspectiva de divisão de mundo entre as grandes potências, lembrando a lógica da Guerra Fria.
“O que acontece agora é que é uma esfera de influência a ser construída pelos Estados Unidos, ou reconstruída. É o movimento contrário. Por isso que é mais agressiva do que a esfera de influência do passado”, disse.
Segundo ele, a ofensiva ocorre em um momento em que Washington tenta recuperar terreno perdido. “É como se fosse um processo de retomada”, afirmou, ao citar o avanço da China na região nos últimos anos e a maior autonomia conquistada por países latino-americanos, com destaque para o Brasil.
A Venezuela se torna, assim, o laboratório de uma nova fase da política externa americana.
Se funcionar, o impacto deve se espalhar pela região. Se fracassar, pode se somar à lista de intervenções que redefiniram a presença dos EUA na América Latina, explicou Pereira. “Eles precisam das imagens de que isso funciona.”
O cientista político chamou atenção também para a nova estratégia de segurança nacional dos EUA, divulgada no fim de 2025 e que menciona de forma direta a ideia histórica de “América para americanos”.
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“O documento diz que os Estados Unidos vão reafirmar e impor a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana e proteger o acesso a geografias-chave e recursos naturais. Não há nenhuma menção à democracia”, disse.
Guimarães reforçou a leitura de ruptura, mas apontou fragilidades internas do documento. “Esse texto parece um abandono da lógica de competição entre grandes potências que vinha desde pelo menos o segundo governo de Barack Obama”, afirmou.
Para ele, trata-se de um documento “mal escrito, mal feito e que não parece consensual dentro do governo americano”. Apesar disso, o professor alertou para seus efeitos práticos. “Mesmo sendo um documento de baixa solidez, ele pode gerar um estrago muito grande aqui na América do Sul”, disse.
Na avaliação de Pereira, a divisão de esferas de influência pode fazer China e Rússia terem perdas de espaço imediato com a ação na Venezuela, mas ganhos no plano estrutural no longo prazo.
“Isso vai cortar para os dois lados para Rússia e China. Eles estão perdendo algo, obviamente”, disse. Ele citou a possibilidade de a Venezuela deixar de honrar empréstimos chineses e a perda de acesso privilegiado ao petróleo.
No longo prazo, porém, o precedente favorece ambos.
“Isso move o mundo para um arranjo de esferas de influência que é muito bom para a Rússia e muito bom para a China”, afirmou. “Os russos podem dizer que não vão devolver ganhos territoriais na Ucrânia, e os chineses podem dizer que esse é um excelente precedente para o que eles querem fazer em Taiwan.”
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Guimarães reforçou a leitura de um novo projeto de mundo dividido em blocos de poder. “Se for uma lógica de esferas de influência, vai se dividir o mundo em três: Rússia, China e Estados Unidos”, disse.
Ele ponderou, no entanto, que não está garantido que esse arranjo seja aceito por Pequim. “Não é dado que esse acordo será aceito, principalmente pela China”, afirmou, ao lembrar que o país asiático tem interesse em manter uma ordem multipolar e multilateral.
Guimarães destacou ainda que, apesar da postura mais agressiva, os EUA enfrentam limites objetivos na região.
“Não dá para os Estados Unidos expulsarem a China da América do Sul”, disse. “Os americanos não têm os meios econômicos para fazer com que a China diminua muito a sua presença econômica e comercial na América Latina.”
Segundo ele, a complementaridade econômica entre China e América Latina é profunda. “Ela é muito grande, e não é tão significativa entre a América Latina e os Estados Unidos”, afirmou.
Nesse contexto, avaliaram os especialistas, Washington pode tentar preservar sua primazia política e de segurança, enquanto tolera a presença chinesa no campo comercial.
Para o Brasil, os especialistas veem um cenário de pressão crescente com a nova política externa dos EUA para a região.
Pereira afirmou que, caso os EUA consigam apresentar a Venezuela como um caso de sucesso, países como o Brasil podem ser forçados a rever sua estratégia externa.
“Talvez o Brasil tenha que recalibrar”, disse. “Não estou dizendo que a China vai desaparecer como parceiro comercial, mas talvez o Brasil tenha que reduzir essa relação.”
Para Guimarães, o país vai enfrentar um impasse.
“Se os americanos são agressivos e nós não nos aproximarmos da China, nós vamos ficar mais frágeis”, afirmou. “Mas se simplesmente aceitarmos a presença americana e a interferência política doméstica, nós também ficamos mais fracos.”
Segundo ele, trata-se de uma situação delicada, em que qualquer movimento pode gerar reação. A estratégia pode não se sustentar no médio prazo, mas ele concordou quanto ao risco imediato. “Nós não podemos esperar que os americanos resolvam o problema interno deles. Temos que nos preparar para os efeitos disso aqui”, disse.
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